MÚSICA & música

        Já havia mencionado que mensurar arte é extremamente complicado, o que levou principalmente de vinte anos para cá, os maiores picaretas do planeta se adonarem dela e por conseqüência da MÚSICA, onde me afeta diretamente. Tudo foi segmentado, encapsulado, organizado, formatado, polido, homogeneizado, pasteurizado, inclusive os tidos como loucos, maluquetes, pirados, hippies, alternativos, psicodélicos, bundões, - ou seja, reggae, metal, pop, rock, jazz, samba, folk, country - junto a todos os outros etc foram estereotipados, depois se fundem entre si ou com qualquer outra coisa mundana e assim por diante, num moto contínuo de barbaridades sem fundamento e embasamento. Tudo idealizado por investidores e parasitas, que bem sabem o que estão fazendo, e cumprido na prática por futuras celebridades, saídas de um esgoto cultural prolífico, recebendo um salariozinho condizente pela representação. O segredo é ter grana e pular na frente dos concorrentes, para serem os primeiros a granjear a admiração por ter “criado” mais aquele rótulo, sendo que o dinheiro fixa o que bem quiser na cachola da maioria da galera. Em seguida virá o comboio dos demais zumbis musicais, que estão estacionados naquele esgoto, esperando sua vez. A jogada é simples neste meio, exceto a grana, onde os requisitos são apenas visual adequado e cara de pau. Nos dias de hoje, para um cara maluco por MÚSICA como eu é difícil ter que tomar ciência da existência de um sertanejo ou calipso, ambos universitários, ou de um som de rave tipo cérebro em stand by, ou um emo core, onde o que os fundamenta são apenas pobres variações de algo por demais pasteurizado e esgotado, sem conteúdo e conduzido por figuras, onde o visual é o que de mais verdadeiro existe nos tais. A confecção de algo previamente padronizado facilita o trabalho desses peões da música, pois os exime de pensar e criar, mesmo que seja vontade deles, serão tolhidos, pois podem “estragar o angu” com o público rejeitando.
        E a “evolução” do rock foi o maior incentivador desse estado de coisas, pois os produtores foram incorporando a ele outros estilos e detalhes, para mantê-lo vivo e assim continuar faturando. Dessa forma foram somando-se ao circo, jazz rock, country rock, folk rock, rock progressivo, rock alternativo, glam rock, glitter rock, kraut rock, noise rock, soft rock, christian rock, garage rock, pop rock, acid rock, psychedelic rock, experimental rock, retro rock, punk rock, rap rock e mais algumas centenas de apenas rótulos, com cada um abrigando alguns caras excepcionais, outros bons e um incontável número de oportunistas, que quando não querem ser enquadrados no existente, criam mais um. Todos num mesmo saco rotulado, se diferenciando pelo investimento, tornando difícil reconhecer quem é quem para o ouvinte eventual, que é a maioria. Nada contra o rock a não ser o fato de ser o estilo mais impregnado de picaretas do planeta, pois todos os países do mundo e em todos os confins de cada um destes existem bandas o executando, tentando aparecer e vingar. E algumas ainda vingam (= faturam), mas sempre acoplando “referências” e referências das “referências”, das comuns até as mais absurdas e investindo à vontade.
        Essa postura no longo prazo vai tornando raízes e balizamentos mais distantes, incapacitando a maioria dos julgamentos. Ao invés de ser crítica a galera batuca, chora, dança, chacoalha a cabeça, rebola a bundinha, levita no compasso, interagindo apenas com o corpo, induzido pelos produtores da cacaca, que dão de barbada o “modus operandi” da dança e do comportamento daquele rótulo. Essas reações corporais os inserem no mundo moderno (seja lá o que for isso) e na roda de fãs e adoradores da cacaca. Estes senhores, picaretas modernos, chegaram ao cúmulo de criar ritmos especiais para quando a galera estiver no vaso, realizando suas necessidades com movimentos que facilitem a evacuação das tropas. Das demais artes, pouco sei e nem faço força, gosto de filmes e aí sou exigente dentro das minhas limitações, mas sei que os picaretas há décadas dão as cartas.
        Assim temos de um lado esses picaretas “in extremum”, que atuam num meio de alto nível (financeiro, não intelectual), produzindo apenas para seus bolsos, e de outro, milhões de seres seguindo no cortejo, comprando, comparecendo a shows e se esfalfando por ídolos forjados. É a manipulação no seu mais alto grau de fatos, pessoas e ideias, só comparável à política e à indústria em geral, inclusive religiosa, que se observado do alto torna-se hilariante, se não afetasse uma necessidade básica minha que é ouvir MÚSICA. Tudo fica poluído, impregnado e contaminado com esse brinquedo rentábil desses caras, e para quem repara e precisa aturar por ser membro compulsório desse circo... São pessoas comuns como eu, você, a vovó do piu piu, o Fred Flinstone, o primo de um CSI desses da TV, travestidos de celebridade, maquiados botando banca pois estão atrás das lentes remuneradas da TV, executando coisas que se nós fizéssemos até melhor, seríamos ridicularizados por parentes e vizinhos. Então porque babar por nossos semelhantes, comuns e chinfrins, que se tirarmos sua possibilidade de copiar e a verba, estaríamos diante de fantásticos zeros à esquerda. Uma cena me vem à mente e que se equivale à situação da Jam como loja, neste picadeiro: um senhor com o nome de Telmo Elmo, bom cidadão, impostos em dia, família bacana, casa, pátio generoso e muro alto. Seu cunhado vai para a Europa por dois anos e solicita encarecidamente hospedar o genro, Atalibio Bosthan e seus 101 dálmatas. Bosthan conhece todos os 101 e sabe administra-los, inclusive mora numa casa inflável, com lavabo e capela junto deles, dispondo do numerário necessário para a boa vida dos animais, como rações e agrados para seus 101 aniversários. Como Elmo nunca recusou nada para ele, e este sempre lhe foi simpático, ele aceita de mais ou menos bom grado. Pensa que precisará aturar apenas latidos e odores em determinados momentos, nada que incenso e ventilação adequada não subjugue. Até porque Bosthan vem munido do aspirador japonês Kanynum, com tela de plasma, que simultaneamente recolhe aqueles inconvenientes diários e sintoniza canais de todo mundo. Bosthan adora tocar sua guitarra Rintintin, uma legítima Eukallypsus II da Pereira Guitars, assim apelidada em homenagem ao vira lata que morreu de over dose, mascote da sua primeira banda, a Cadáveres Desovados. Isso provocou nele uma tristeza tão grande que a revista Os Irracionais o elegeu, “Dog’s best friend 2008”. Além disso, Bosthan faz suas refeições junto aos dálmatas, abanando seu rabo ao lado de Astolfão, líder da matilha, precisando apenas um prato de níquel cádmio, uma pinça pega ração da Scarlet O’hara Dogs Fashion e mostarda. Diante dessa situação exposta, estimamos as providências de Elmo, quando depois de passado dois meses, assistindo com a família sua novela preferida e um coral de 20% dos dálmatas irrompe entoando hinos caninos, seguidos pela guitarra oportuna de Bosthan, tendo aquele odor peculiar de fundo, já impregnado nas entranhas do lar, transformando uma vida familiar de lutas, desafios, mas também de chatices e constrangimentos em uma verdadeira sexta feira 13. Nisto está a similitude com a Jam, onde procuramos deixar o lixo musical, com tudo que o acompanha lá fora, bem longe, mas fica difícil isolar total, com e-mails de gravadoras, revistas “especializadas” para lojistas, errantes sonoros em busca afanosa de algo já dizimado por seus próprios mentores, embates verbais sobre MÚSICA e música em terras estranhas e inóspitas, presença eventual e desavisada em algum “evento social”, que proporcione contatos auditivos danosos neste nível, etc.
         Rótulos na medida certa são necessários para estabelecermos as diferenças, efetuarmos comparações, fazendo a devida distinção dos melhores. Nos dias de hoje, onde no mínimo metade da população do mundo ambiciona ser celebridade, temos excesso de tudo, menos de dinheiro que está no bolso dos arquitetos deste circo globalizado, e arte, agora distorcida total por “eles”. Os filtros naturais que excluiriam essas barbaridades, como capacidade vocal, criatividade e inspiração nos arranjos e composição, são substituídos pela repetição exaustiva, pueril e infantil, maquiadas pelos computadores e seus programas, numa degradação crescente. O baixo nível musical geral, requerido e imposto, ou imposto e requerido ao (ou pelo) mercado, é como o ovo e a galinha. O mercado pede ou é obsequiado primeiro? Em minha opinião sempre é induzido, pois é passivo, aguarda o que os doutos, celebridades, políticos, xerifes financeiros, gurus, intelectuais de plantão e designers vão lhe impor. Então quando a classificação é mais importante que as específicas qualidades pertencentes a ela, algo ou tudo está errado. As classificações foram ficando cada vez mais estreitas, como na medicina, onde já existem médicos somente para os dedões dos pés, acomodando mais profissionais, especializados e restritos em pequenas áreas. Porém a medicina é uma ciência, enquanto MÚSICA é arte, então os compartimentos musicais deveriam ser mais espaçosos e arejados, para que a criatividade e arroubos de mudanças tenham mais possibilidades de surgir e vingar. É mais cômodo e menos oneroso doutrinar o mercado com a baixaria, não precisando mais depender de um Fripp, Tom, Thompson, Hancock, Callier, Parker, Mayfield, Chico, Mitchell e por ai afora, para forrarem seus bolsos.
        É o abandono da qualidade em prol das vendas e da popularidade, deixando os que precisam de algo mais, na dependência de alguma orientação familiar ou divina, ou de um “feeling” apurado, conseguindo encontrar MÚSICA mesmo coberta por todo esse entulho. De minha parte, nunca toquei nada, nem tive uma aula sequer, mesmo tendo sido impactado pela MUSICA após os 10 anos. Claro que na época os caminhos eram escassos, e como não tinha capacidade para me tornar um virtuose, me inscrevi como OUVINTE ETERNO DE MÚSICA, situação na qual permaneço até hoje, cadastrado com o número OEM15543BR. Se tivesse nascido nos 80 ou 90, quando a velocidade da vida ia gradativamente aumentando, talvez não tivesse a paciência que adquiri ao longo do tempo, para assimilar músicas mais complexas, sentindo emoção ao desvendar nuances, filigranas e melodias. É espantoso como em pleno 2010, a maioria das celebridades são apenas cidadãos comuns, maquiados e “envernizados” por seus patrões, e na maioria dos casos de baixo nível cultural. Hoje sinto que tomei a decisão certa em não me tornar músico, pois seria mais um, despendendo tempo e recursos, deixando de aproveitar uma característica que suponho ter, uma suscetibilidade e uma sensibilidade na alma para a música, que me coloca, quando em audições concentradas, em outros estados anímicos ou até em outras dimensões*.Desta forma, pelo menos para mim, fica impossível aceitar algo que não seja MÚSICA DE VERDADE.
        Sobre as pessoas que não precisam de MÚSICA, aceitando as “sugestões pra galera” que andam por ai, tenho que me conformar que são felizes assim e que suas almas não precisam disso ou nem se deram conta que, pode haver algo mais além do arco íris que vemos de vez em quando, ou do lançamento de um novo tênis hidrogenado, com exaustor eólico e que depois de sair da moda pode ser mascado como chiclete. Apesar dos meus 55 anos, dou a impressão de que quero mudar o mundo, como quando tenho divergências com meu cachorro, tentando que ele faça suas necessidades até 4,58 metros da parte posterior do pátio. Sei que o dogão irracional não vai mudar, bem como este mundo circense “racional”, assim como eu mesmo, um índio velho empedernido. Estamos estudando sortear aqui na Jam, entre os amigos da casa, um belo lustre com o logo da sua banda preferida, os quais começarão a ser produzidos pela empresa recém criada, Ilustres Pereira-Ferrão & Cia. Fiquem ligados! E vão algumas dicas do maestro Arquivo Morto, confiram: Reni & Tente, Saudado & Saudável, Veado & Enviado, Faxineiro & Fascista, Romário & Armário, Esquilos Eloqüentes e Steven Seagal Poraky & Os Cachorros Quentes.
        * - (saiba mais no texto “O nosso lixo musical já está em outro planeta) (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 11/ 06 / 2010)

A pirâmide do som


         Na música o difícil é estabelecer critérios que possibilitem mensurar o que estamos ouvindo, sem precisar ler os “entendidos”, principalmente tupiniquins que só irão atrapalhar. Para os que faturam com música, a confusão existente e predominante é vital, pois de algumas décadas para cá, quem paga, grita e esperneia mais, leva a grana da moçada. Sem as pessoas perceberem, centenas de músicos opacos são jogados no mundinho sonoro a cada mês, como se tivessem alguma relevância, juntando-se aos débeis já existentes e aos poucos que realmente tem valor. E todos estão no mesmo plano, como se fossem da mesma cepa, sendo que essa prática foi tirando o norte das pessoas, que passaram a misturar alhos com bugalhos, acumulando entulho em suas casas e tendo dificuldade em discernir os melhores. Esse entrevero confunde tanto que, um Oasis passa a ser do mesmo nível dos Beatles, o que é uma blasfêmia, pois só no cotejar o repertório à diferença é abissal, com as composições do Oasis não resistindo a algumas audições com afinco, como várias vezes constatamos no nosso ramo profissional. Na medida em que as pessoas vão ouvindo pra valer os irmãos Gallagher, dúvidas vão se acumulando e a paciência se esgotando. A partir daí há dois caminhos, um é estocar o material por algum motivo sentimental e o outro é passar adiante, para outra pessoa que não vai gasta-los, pois não os ouvirá muito.
         O investimento pesado na divulgação se justifica, pois junto com desconhecimento geral farão o serviço de vender o produto. Significa que na música não é fácil diferenciar o filé e a picanha da carne de pescoço ou do nervo, pois a mídia e os entendidos elogiam todos que contribuem para suas caixinhas, não definindo os níveis de cada um. O nível a que me refiro é um dos critérios particulares, onde estabeleço patamares pela qualidade e excelência do material de um músico, em relação ao seu estilo e após cotejando o no contexto geral. Depois de pelo menos 40 anos convivendo com música, sem medo de errar afirmo que “a melhor música não tem nada a ver com: beleza física, trajes, adereços, atitudes, danças, rebolados, o que pensam, o que os apresentadores dizem, se é mainstream ou alternativo, barulhento ou silencioso, suave ou áspero, lento ou rápido. E independe do volume de vendas declarado, suposta posição nas mais pedidas, da opção sexual e religiosa, das relações amorosas, do volume de aparições na mídia, ufa e etc, dos intérpretes e ou compositores”. Trocando em miúdos, um cara vestido pra montar num jegue, com a cara do Freddy Kruger maquiado, cabelo da Amy Winehouse e voz do Johnny Bravo pode fazer uma música excepcional, e outro vestido para um bailão de debutantes, com a lata do canastrão mais novo da novela da hora, cabelo tipo Pitt, Brad e voz dos três tenores juntos, fazer um lixo de corar o Pausão na hora de ter de apresenta-lo no seu programa. E vice versa.
         Quero dizer que o sistema mais eficaz para mim é o das comparações, por mais difícil que possa parecer, mas para isso temos que conhecer e ouvir, ouvir e conhecer muito, não adiantando somente ler sobre, pois não sabemos de antemão o que cada escriba musical pretende. Normalmente é vender e empurrar produtos e justificar o que ele ganha para quem o remunera. Quanto mais ouvimos e quanto maior o espectro musical que abrangemos nas audições, mais fáceis serão as comparações. Existem estilos como o jazz, que se ouvido com assiduidade nos deixa traquejados para audições de peças mais complexas, inclusive dos outros estilos e aptos a rejeitar as empulhações que nos cercam. É engraçado listar aquelas coisas estúpidas do parágrafo anterior, como se ninguém soubesse que o cabelo e as unhas das figuras não influencia no som que vamos ouvir nas caixas. Porém já nos anos 80, uma pesquisa americana revelou que 60% dos discos vendidos, tinham como item fundamental a capa do álbum. Naquela década a qualidade geral já não era a mesma dos 70 e principalmente dos 60, mas ainda resistia. Conforme sou testemunha, nas duas décadas seguintes a brincadeira de enjambrar hits, criar ídolos de barro com cedro na cara e confeccionar embustes sonoros, se profissionalizou. Todos com serviço completo, copiando descaradamente suas influências e dando uma identidade para cada um em cima dos itens tolos mencionados no parágrafo anterior. Acrescente-se que as pessoas, nos dias de hoje, tem menos tempo para ouvir músicas, pois o sistema nos faz correr mais atrás do sustento e do próprio rabo. Como hipótese, o grupo Cuspidas Eletro Magnéticas na sua divulgação explora o fato deles serem adoradores do Cebola, deus da culinária, e do vocalista Rogerom ser amante de Decibelina do grupo Ejaculando Felicidade. Afora isso os Cuspidas foram os que mais venderam em Itulavajato, usam chapéus tipo Três Mosqueteiros, fizeram sucesso com “Chuta, chuta gostosona”, os integrantes tem pelo menos uma unha encravada, usam crachás da ong “Salvem os Saltimbancos Camarões”, no ano passado picharam o membro daquela estátua, cantam com um prendedor de roupa nas suas línguas e por ai vai. Fica claro que os Cuspidas revelam vários aspectos para que os idolatremos, mas nenhuma diz respeito a um som excepcional, de qualidade, a qual seria a única razão que me levaria a ouvi-los pelo menos uma vez .
         Há pelo menos 15 anos não assisto a nenhum programa musical na TV aberta ou cabo, nem no rádio, por saber que as gravadoras só investem em coisinhas baratas e usam aqueles veículos para atingir o grosso do público. Assim tenho que lutar pelo som de cada dia dependendo da troca de ideias com meus sócios, a galera que freqüenta a loja, de 70% dos textos precisos do AMG e da bagagem adquirida ao longo dos anos, inclusive ouvindo milhares de pobrezas musicais, quando selecionávamos para sonorizações. Então como escuto várias vezes cada álbum que me chama a atenção, estabeleci para mim a pirâmide do som, conforme o gráfico. No espaço A os músicos fora de série, que além de criarem estilos, tem vida própria mesmo fora de qualquer classificação ou grupo em que queiram colocá-los. Tem na composição seu forte, com melodias que atravessaram ou vão atravessar décadas, com irretocáveis interpretações deste material, tendo marcas registradas nos vocais ou instrumentais. Quando alguém os coveriza, notam-se as perdas, surgindo à frase “isso não fazia falta”. O grupo B é um pouco inferior ao A, não criando estilo novo nem contribuindo para alterar a sua cena musical, porém tendo composições e interpretações notáveis que acrescentam e fazem diferença no repertório mundial. As músicas tanto do grupo A quanto do B, tendem a permanecer por décadas, e sempre quando o penitente dá o play, ela satisfaz plenamente não pela eventual lembrança que ela possa trazer, mas pelo conteúdo que enche a alma dele. O grupo C é composto por trabalhadores, estivadores e transpiradores musicais, pessoal às vezes de boa índole, interessado em vencer no mundo musical. Porém são músicos normais, comuns, corriqueiros e por mais que adornem seus trabalhos, depois de um tempo a maquiagem cai e sobra muito pouco. Não são ruins, são até bons, mas não fazem o penitente carregá-lo uma vida inteira ao seu lado, ouvindo-o nos seus piores e melhores momentos como um amigo. O grupo D é o último, o mais numeroso e o mais lamentável. A simples existência deles é uma excrescência, só se justifica por que alguém teve a intuição de que ganharia algum com aquelas coisas, e ganha mesmo. O pior é que essas coisas tem uma certa vida, seja com as pessoas dançando, bebendo e ouvindo num posto de gasolina, ou faturando refri e cachorro quente para bater palma e gritar em estúdios de programas na TV. À propósito, na minha pirâmide o Oasis eu acomodo no grupo C e os Beatles no A.
         Eu carrego minha pirâmide na secção 126 do meu cérebro, e é volúvel e mexível, na medida em que vou conhecendo e acrescentando outros músicos ou ouvindo com mais acuidade os que lá já estão. Nada é definitivo, porém algumas coisas vão se solidificando e tomando corpo a cada audição, assim como modificando algumas posições. Com o tempo, o departamento musical da alma vai confirmando e classificando os ótimos e defenestrando os entulhos ou embustes impecavelmente bem feitos. A minha fome é por sons para o setor A e B, coisinhas boas e mais ou menos eu deixo para lá, mesmo. Com o volume grande de produções musicais, essa é a forma que encontrei para tentar ter uma visão geral dessa confusão tipo embrólio sonoro, que só serve para quem prensa esse monte de lixo e precisa trocá-lo por dinheiro. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 12 / 2009)

Políticos, Celebridades & The Big Bosses

         Há duas semanas atrás meu cachorro - após seu jantar - me encarou com uma expressão diferente, talvez de orgulho, questionando como consegui alimenta-lo em todos esses anos, dar tapinhas sinceros nas suas costas e desejar-lhe sempre o melhor. Senti um ser, mesmo irracional, me agradecendo por algo que de uma forma ou outra realmente faço por ele, contando com seu bom policiamento. Olhando nas relações somente entre humanos, isso já é mais difícil, pois quando alguém reconhece o auxílio de um semelhante, pode estar criando uma dívida, estilo máfia, com o que fez a benesse já estar esperando por isso. Essas ligações humanas movem o mundo desde seu princípio, criando conexões das mais variadas, gerando consequências que vão se acumulando, ensejando nós e embrólios que nem o melhor e mais moderno santo consegue desfazer. Em meio a esse volume de “negociações”, eu acho engraçado quando as pessoas mencionam a seguinte frase, “nunca a corrupção e a roubalheira foi tão grande quanto agora”. Isso pré-supõe que o autor ou autores dessa frase antiga e surrada, conhecem a fundo o passado e o presente, nos seus meandros e escaninhos, conseguindo fazer a devida e justa comparação, sem medo de errar. Se isso fosse verdade, o parlamento da Roma ou Grécia antiga teria sido composto por anjos e vestais, dando a César e seus cupinchas o que era deles e ao povo o que lhes seria por direito. Sabe-se que campeava a corrupção, sacanagens, roubalheiras, conchavos por interesse, matanças oportunas e o povo era o povo, permanecendo até hoje sendo o povo de manobra, suscetível a ídolos, deuses, religiosos, militares, políticos, heróis e as celebridades. Vamos chamar esse grupo de “Executores”, os líderes “carismáticos” do povo, com suas qualidades exacerbadas pelos que realmente governam e mandam, os the Big Bosses.
         The Big Bosses, os chefões reais do seu rebanho, não o político que foi eleito, este é apenas um preposto ou testa de ferro dos Bosses, que pode ser um grupo maior ou menor, com afinidades de propósitos, que digladia entre si por quinhões maiores do bolo, mantendo o rebanho sob seu tacão, seja a nível municipal, estadual, federal ou mundial. Usam seu poderio financeiro da forma mais conveniente num conjunto à sua disposição, sedento por grana, como mídia, política, diversas instituições sempre com líderes abertos a negociatas e as pessoas em geral, que tudo topam por uma bagana de qualquer coisa. Quanto àquela frase da corrupção no parágrafo anterior, se é maior ou menor, ela vai depender das forças que estão no poder e as que querem ascender a ele ou as que querem aumentar seu quinhão. Esta tensão, disputa ou conchavos vai gerar o uso e a liberação da mídia para divulgar -mais ou menos- o que ocorre, distorcido ou não, de acordo com os propósitos de quem está pagando. Portanto é apenas uma questão de divulgar ou não, muito ou pouco. A podridão suprema sempre esteve e sempre estará aí, em todas as esferas da vida humana, mais acentuadamente nos terceiros e quartos mundos, mais selvagens. Se outros grupos surgirem com força de barganha e quiserem seu quinhão, a diferença para os deixarem contentes virá novamente da “sociedade organizada”, a não ser que esta já estiver exaurida. Então os Big Bosses precisam se coçar e dividir, para acalma-los.
         Todas essas mumunhas que ocorrem desde Adão e Eva, inclusive guerras, extermínios de populações, imposições religiosas armadas, segregações, escravizações raciais, enxugamento de economias, tem os dedos e a anuência dos Big Bosses, para que seus poderes e riquezas estejam sempre acima dos interesses da comunidade. Se o Boss tiver um pouquinho de bom senso, ele cuidará da sua imagem sendo um bem feitor para a sua comunidade, distribuindo cestas básicas, balinhas, cooperando com o hospital local ou time de futebol, sendo isso uma merreca comparada com o que ele costuma auferir e um investimento nos seus lucros futuros. O resumo da ópera, povo de um lado, Big Bosses do outro, executores no meio, sendo manipulados pelos Big para deixarem o povão de quatro via mídia, tornando-os maiores ainda, seja com o consumo, voto ou outra atividade prazerosa para ambos os lados. O povo faceiro dentro deste imenso circo, vibra e se satisfaz com um novo celular, uma cervejinha importada na promoção, com o canastrão beijando a canastra no fim da novela ou com a narração de um gol do seu time pelo Pavão. Existe o declínio e a ascensão de um Big, até a extinção de um e o realce de outro, conforme for a guerra particular entre eles, no mundo deles, pois são pessoas com mais ganância e menos escrúpulos que as pessoas “comuns”, sendo essas suas qualidades para acumularem suas riquezas. Naturalmente com o volume patrimonial de cada um, sempre terão que estar alertas contra os demais Bigs. A globalização com cartões de crédito, computadores, internet, etc, responsável pelo aumento do desemprego e que num futuro próximo com certeza agravará mais ainda, poderá ferrar também com alguns Bosses nativos. Os Bosses maiores, os internacionais poderão nos comandar de forma direta, sem a necessidade desses chefes cucarachas intermediários, talvez propiciando a nós cucarachas povão, um certo orgulho cucaracha por termos os famosos gringos nos aloprando.
         Vamos deixar de lado os Bigs, que se não forem os que aí estão, serão outros do mesmo naipe e nos concentrar nos “Executores”, mais peculiares e engraçados, pois são os palhaços do grande circo, com remuneração superior aos palhaços tradicionais dos verdadeiros circos, que encantam as crianças. Nós, o povão, somos os trouxas passivos, aguardando que algo caia do céu ou saia de baixo da terra com uma varinha de condão ou um tridente, modificando tudo como num desenho animado. Para mudar nossas vidas, o da varinha teria que tirar um pouquinho dos Bigs, que como já vimos são seres gananciosos e muito poderosos, inviabilizando essa ação. Mas enquanto esperamos, vamos nos deleitando com os Executores do momento, essa corja de humanos cada vez mais chinfrins, sem graça e descartáveis. Como diz um bom puxa saco, “o futuro ao Big Boss pertence”. Com esse texto, quero dizer que um cuspidor como eu nunca vai influir no município, estado, país ou no mundo, mesmo votando.(Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 25 / 11 / 2008)

        O tamanho do monstro

         Calculo que tenha sido no meio dos anos 80, quando começaram a surgir apresentadores / cantores de programas infantis em profusão, para o entretenimento dos filhos do nosso país, proporcionando alguma folga aos pais. Estes tendo seus rebentos distraídos em frente à televisão, poderiam cuidar de assuntos mais nobres e relevantes. Esses programas foram se “desenvolvendo” e devem estar até hoje dando frutos àqueles que os idealizaram e investiram. Eles carregavam de quebra diversos produtos e ideias rentáveis, que eram jogadas para que as mentes inocentes as carregassem para o resto de suas vidas. Os pais, ocupados, adoravam e achavam engraçadinhos, pois seus pequenos não os estavam atrapalhando. Um “monstro” muito feio estava se criando. De1975 a 1995 trabalhamos com sonorizações, de todo o tipo e espécie imagináveis, tendo que usar e abusar daquelas músicas para pequenos, que também “agradavam” aos marmanjões, que nos impunham suas execuções de forma adoidada. Elas me eram indiferentes, pois lidava com muita coisa pior, mas tinha a sensação de estar participando de algo nocivo de alguma forma. E os pimpolhos, cumpriam tudo que alguém com uma peruca loira ou alguns traços de maquiagem lhes pedisse. Eu imaginava uma vassoura com aquela peruca e um papagaio atrás dela pedindo que a gurizada sapateasse nas poças de água, atirando barro umas nas outras. Elas não decepcionariam aquela deusa loira. Em 93 nasceu minha filha e sempre que pude, evitava coloca-la em frente a um “negócio” daqueles, ou pelo menos esclarecia, dentro das limitações da sua idade, a intenção daqueles elementos. Esse tipo de programa basicamente enaltece a beleza física, aparência externa com roupas e trejeitos da hora, uma falsa amizade bacana e o culto e obediência a quem está empunhando um microfone, cuja ação principal é vender tudo até seus próprios hits. A TV Cultura sempre apresentou programas infantis com mais conteúdo, porém sem a pompa e a maquiagem requerida, portanto inadequados para grande parte dos filhos, além de um alcance menor pela antena. Mais tarde esse tipo de programa foi adaptado e estendido aos teen e aos já nem tão teen, também com sucesso confirmado e aprovado.
         Hoje tenho a certeza de que tudo isso foi nefasto e muito colaborou para termos esse quadro cultural degradante, neste rico país dos outros. Também reconheço que o que temos hoje na música e no resto é muito pior que aquilo que loirinhas e moreninhas expeliam por suas boquinhas lá nos anos 80, porém elas indicaram o medíocre e rentável caminho a ser seguido. Cabe dizer, para tirar um pouco do nosso, que selecionávamos músicas para eventos de toda a espécie, mas tínhamos a nossa própria em casa, muito longe das que ejetávamos para fora. Após o ano de 1980, dificilmente eu conseguia mover algum músculo com o que rolávamos para a galera, além dos dedos nas mixagens. Eu sempre me considerei um operário da música, sendo remunerado para tocar aquilo que as pessoas já estavam carecas de ouvir nas rádios e televisões, com pequenas brechas para inserir algumas coisinhas. Essas brechas foram diminuindo a cada ano que passava, pelo investimento crescente dos donos das celebridades, estabelecendo definitivamente o gosto e o que a galera iria ouvir no dia seguinte, até hoje. Se ainda estivesse nessa atividade, por extrema necessidade, me consideraria um robô musical, programado por um sistema medíocre e sem nenhuma alternativa ou saída. Claro, nunca generalizando, algumas pessoas não eram e não são afetadas, escolhendo seus preferidos sem influência dessas “dicas”.
        Essa violenta atividade marketeira em cima só de medíocres, resultou no que temos hoje, quase nada no aspecto musical, mas um montão de celebridades que só servem para serem idolatradas por tudo que elas não são. O aniversário ou a morte de alguma delas, somado a um bocado de grana, faz com que TV’s, jornais e rádios apurrinhem até não mais poder, fazendo a galera se comover e realmente enxergar qualidades e virtudes que aquelas figuras nunca tiveram ou as abandonaram há muito tempo. Assim as novas gerações também terão em casa ou nos seus corações, deuses ou reis de qualquer coisa, humanos e imperfeitos como qualquer um de nós. No longo prazo, esse negócio junto com livros, filmes e TV em geral, que sem dúvida estão no mesmo barco, causam perdas irreparáveis a cultura de uma nação. Devemos acrescentar que de alguns anos para cá tivemos o ingresso avassalador da internet neste circo, claro que com o predomínio dos mesmos de sempre, somente adaptando, ampliando e diversificando o lixo, para ocupar os principais espaços e continuar a “entreter” a galera, tornando o monstro indestrutível. Alguns espasmos de cultura e qualidade são encontrados, porém com certeza nunca suprirão e remediarão o estrago já feito. O resultado prático, milhões de massas cinzentas de manobra mostrando sua utilidade quando compram e votam a favor dos mesmos, mantendo assim o status quo encantado deles e deixando todos os chitãozinhos sem nenhum tempo pra chororó, com tanta diversão bacana neste planeta. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 08 / 2009)

Poncio Piadas

         Tenho que confessar, por justiça, que muitas das informações que obtenho sobre música, tanto nacional quanto internacional, vem de um sujeito muito inteligente e esperto, que conviveu nos 80 e início dos 90 com as principais gravadoras do país. Ele participou do famoso projeto no.72/1989, denominado, “Abagaceiramento musical, reduz custos e amplia o lucro”, copiado e adaptado para a nossa realidade por ele, vindo dos nossos grandes mestres e gigolôs, os USA. Primeiro vamos apresentá-lo, pois sua vida foi repleta de realizações e experiências. Seu nome é Poncio Piadas.
         Tudo começou quando as caravelas de Pedro Álvares Cabral vieram para cá, e nos descobriram. Aqui no sul, até hoje faz frio. Junto havia um sujeito, espécie de animador de torcida, ou livro humano de auto-ajuda, alegrando e entretendo os marujos, principalmente com piadas sobre espanhóis. Ele vinha na caravela principal, ao lado de Pedro, por indicação do rei de Portugal e do bispo Sardinha. Era o antepassado de Poncio, com o nome de Joaquim de Alvarenga e Ranchinho, cuja colaboração foi inestimável, pois o desempenho dos marinheiros daquela caravela foi o melhor. Esse desempenho propiciou aos marujos, sobremesa dobrada por uma semana, rindo e trabalhando, trabalhando e rindo, enquanto nas outras embarcações a tônica eram enjôos, vômitos, dor de cabeça e brigas constantes. Chegando ao Brasil, Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta, ressaltando os feitos de Joaquim e recomendando homenagens. O rei de Portugal o nomeou Conde de Piadas, lhe ofertando uma porção de terra com 100 m2 e um galinheiro pré-montado, com 55 penosas acompanhando. A partir daquele dia Joaquim mudou seu nome para Joaquim Piadas, tornando-se um dos mais importantes amigos do rei. Anos depois veio definitivamente para o Brasil, iniciando o clã dos Piadas, que veio a ter em Poncio um dos seus expoentes, nos dias de hoje, quinhentos anos depois.
        Com essa explanação, podemos notar que Poncio tem berço, com chupeta, edredon e três mosqueteiros, ao qual acrescentou duas faculdades, Filosofia e Musicologia, e técnico em Cabelologia. Seus ensaios e trabalhos no setor musical chamaram a atenção das gravadoras multi-nacionais instaladas aqui, pois com a filosofia ele mostrava conhecimento sobre o ser humano e suas necessidades, inclusive musicais. A partir de 1990, ele desenvolveu um profundo estudo sobre a música nacional, financiado pelos maiores interessados. O resultado foi chocante e ao mesmo tempo alviçareiro, pois o povo suportaria muito bem uma queda de 78,85% da qualidade geral da música, obviamente deixando uns 7% da população ao Deus dará. Também seria possível um aumento de 15 a 20 % nos preços dos produtos, porém teria que haver um investimento maciço em mídia, para dourar e adocicar aquelas coisas. Os managers das gravadoras, colocando todos os números no papel, constataram que poderiam auferir um lucro ainda maior. Também as majors haviam feito experiências nos anos 80, lançando algumas farpas, estilhaços, dejetos e curumilhas sonoras, a titulo de vamos ver no que dá, e algumas davam mesmo. Então no início dos 90 a coisa toda fluiu, os dejetos passaram a ser arremessados através da mídia, que dourava e doura até hoje, como se essas coisas fossem a nova elite da pobre MPB, uma “modernização” ou “avanço” do que existia, rumo ao quarto milênio. Empresários musicais, tais como Casquinha de Siri, lançavam aos magotes grupos de axé, pagode, sertanejo, funk, calipso, etc e o eterno romântico, que corre atrás do próprio rabo até hoje.
         Então foram atirados nos nossos peitos, sumidades como “ Só pra Confirmar(SPC)”, “Banho & Tosa”, “Os Lambaduchas”,“Os Suficientes do Ritmo”, “Tirariricá-Rex”, “5/12 Avos & 7/12 Avos”, “Vanilda Carrapicho e os Embrulhões”, “Elma Gipes e os Incontroláveis” com um pagode tipo bisnaguinhas, os românticos Caíque Lajota, Ernesto Mármore e Lázaro Tijolo. Além destes, a gostosa Vilma Requeijão, “O Cathim-Gales”,com os irmãos Johnson, pagodeiros do Pais de Gales, mais alguns “roqueiro$” dando um último suspiro, como os “Silhuetas Desesperadas”, “Os Tijuanetes”, “NXYNC-Zero” e mais algumas centenas de “aplicadas sonoras”. Fazendo um rápido paralelo, nos anos 60 e 70 tínhamos na ponta da mídia Chico, Tom, Elis e Milton, com álbuns antológicos que até hoje permanecem nos catálogos do mundo, sendo que no ano de 2009, quando tenho essa prosa virtual com Poncio, vemos que bem na ponta da mídia estão Daniel, Ivete, Pires e Vitor & Leo. Os três primeiros há quinze anos ocupando seus trono$. Não existe comparação possível, a distância é imensurável, tendo de um lado gênios e extra classes, com uma sensibilidade e musicalidade da estatura dos melhores do mundo musical popular. E do outro, pessoas comuns, “artistas” banais, elevados à alturas somente possíveis com maciço e permanente investimento nas suas imagens, para empurrar o re$to. E não deixam nenhum legado, pois seu “trabalho” é composto de material descartável, perecível tal qual uma laranja, ou uma batata, não sobrevivendo nem ao curto prazo. No futuro, ninguém lembrará de apresentar um disco deles para o filho ou neto, pois terá seus lixos específicos da hora, já que os antigos foram dispensados por falta de uso e o DMLU os incinerou. O próprio Poncio estimou entre 1991 e 1998, em mais de 3700 aventuras sonoras de péssimo a medíocre, passando por ruim, com alguma repercu$$ão, pois investiram, ou em outras palavras, pagaram para aparecer.
        Piadas deixou o país em 1998, abatido, por segundo ele, o nível estar abaixo da crítica, sem o contraponto de algumas coisinhas melhores, para pelo menos manter o povão estagnado. Ele nunca se perdoou pela situação, de seu trabalho ter sido decisivo para essa baixaria desmesurada da qual somos vítimas hoje, apenas por ser mais fácil e coincidir com o nível dos managers. Se o nível fosse melhor, a grana viria igual, ampliando alternativas musicais no futuro. Então Poncio foi para Hollywood, cuidar das cabeças mais caras do show business, pois foi exercer a sua terceira profissão, cabelólogo. Ele foi o responsável pelo projeto do implante de crinas de cavalo naquele famoso rapper, idealizou o tingimento dos pelos das axilas daquela famosa artista mexicana, às vezes loira, às vezes morena, conforme o ângulo. Foi o pioneiro no implante de pelos de poodle em gatos siameses, teceu tapetes com pelos pubianos das gostosas da playmobilboy, estabeleceu definitivamente o tamanho ideal do bigode daquele diretor de cinema taciturno, elaborou uma capa de Batman, somente com as asas de moscas varejeiras, que foi adquirida pelo caçula dos irmãos Nelson, ou seja, realmente encheu seus bolsos com o dinheiro dos USA bundões. Permanece por lá até hoje, musicalmente só escuta o barulho de chuva, neve derretendo e adora ver e ouvir cupins trabalhando. Construiu uma sala de madeira só para eles, em Beverly Hills, na temperatura ideal para se exercitarem o ano todo. Casou-se com Vilma Requeijão, que agora somente rebola sua bundinha socialmente, pois aposentou as profissionais, para fins diversos. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 05 / 2009)

Pra não dizer que não falamos em carnaval...

         Faltando uma semana para os festejos de momo (uma celebridade?) de 2009, me ocorreram alguns pensamentos: “divisas que entram no nosso país são sempre bem vindas, pois via de regra estamos de chapeu na mão”, “os mais antigos citavam o carnaval como uma festa popular e da família”, “só os sambistas de verdade vão para a avenida”, e outros que me fugiram. Passei a raciocinar sobre a validade dessas frases nos dias de hoje, ou de 25 anos para cá. No fim dos anos 70 e início dos 80, os que ganhavam dinheiro com música no Brasil, começaram a pasteuriza-la e a organiza-la de forma a ter o controle sobre ela e os artistas, reduzindo os preços destes com o aumento da competição. Volume maior de astros, com a contra partida da queda do nível de exigências e qualidade deles, claro que compensando esta queda com outros itens como beleza exterior, simpatia e outras mumunhas que a galera “aprendeu” a valorizar. O raro virou comum, os espaços para mostrarem seus trabalhos a nível nacional inflaram, tornando estes mais onerosos. Foi a inversão racional, sobra “arte”, escasseia o espaço para expô-la, tornando um excelente negócio para as rádios e TV’s. Em outras palavras, o espaço em TV e rádio vale mais que qualquer astro. Nos USA e Europa isso já estava ocorrendo. Nos anos seguintes esta forma de gerir a “arte”
         foi se intensificando. Na verdade tudo que a arte dispensa são padrões, organização, metodologia, semelhanças, cópia....onde deveria prevalecer a genialidade. A arte deve ser assimilada e interpretada pelas pessoas, mesmo que seja difícil e penoso no início. Quando ela é “elaborada”, visando um público alvo e que já está esperando pela mesmice, então não temos arte, trata-se de produto. Exemplificando, no fim dos 70, início dos 80, houve o boom das cantoras nacionais, surgiam aos magotes, é só lembrar das centenas de nomes, algumas ainda na ativa, outras foram apagadas pelo mercado. No início dos 80 surgiram inúmeras bandas de rock Brasil, (algumas boas e outras sei lá) sendo que a maioria delas baseadas no rock inglês alternativo e no punk que haviam emergido no fim dos 70. Essas bandas tinham nas letras um diferencial, aproveitando a “abertura” no país, podendo usar palavrões ao seu bel prazer e bater com delicadeza na política. Muitas delas, se não houvesse essa liberalidade conveniente para o status quo tupiniquim, não teriam tido repercussão. Nos 90, uma enxurrada de duplas sertanejas, que continua até hoje, já com alcunha de universitária, mas sendo a mesma droga limitada, comum e emburrecida. No carnaval, quando a televisão sentiu o lucro que poderia auferir, transmitindo ao vivo e encampando as várias manobras correlatas, algo semelhante aos já citados aconteceu. Os mesmos gurus induziram um padrão para atingir as massas espectadoras, aquele padrão dado às novelas, noticiários e programas de auditório e humor, onde o mais importante não é um enredo, mensagem ou diálogos instigantes e elaborados, mas sim situações inócuas repetidas e surradas, com as caras dos canastrões e celebridades apaixonados ou sacaneados, se revezando na tela.
         Essa transmissão para milhões de pessoas, para não se tornar enfadonha para a maioria, requer visuais que chamem a atenção, como diversidade de cores, contrastes, nus dos 4 sexos, volume de pessoas, depoimentos desnecessários e estúpidos de “celebridades”, enredos de samba confusos, aparentando serem rebuscados e culturais. A música virou um padrão maçante e repetitivo, há pelo menos 20 anos, sem nenhuma inspiração, para que a galera da avenida pule feito tribo indígena ao plim do trago, e para que os assistentes televisivos batuquem em casa, na sua poltrona, ao lado da sua cervejinha. Sem falar no lucro que proporciona o entra e sai das ditas celebridades, parasitas pagando sempre para manter um “nome”, desfilando nas escolas e ocupando as telinhas, para vender seu “produto”, seja lá qual for ele. Vai uma sugestão: criar uma vez por mês uma noite carnavalesca, com desfiles classificatórios às finais em fevereiro e em todos os estados da união. Sendo que a censura permitiria carros alegóricos com sexo ao vivo, para manter o espectador ávido e interessado, pois acredito que a rotina esgotaria a paciência inclusive do povão. Então o carnaval, assim como outros setores,nunca mais foi o mesmo, interesses gigantescos passaram a envolve-lo, desde um cafetão global de alto nível querendo expor sua mercadoria na TV, até uma grande marca querendo massificar, pagando para ser tema de uma escola de samba. Por volta de 78 assisti a uma entrevista marcante da Elis Regina, quando perguntada se ela gravaria alguma música de carnaval. Já naquela época, a resposta veio seca não sendo surpresa para mim, mais ou menos assim: “baixou muito o nível das composições para o carnaval, se não pintar algo muito bom, nunca vou gravar”.
         Então aquela expressão já surrada, “sexo, drogas e rock’ roll”, nossos empresários transformaram em “sexo, drogas, bebidas e o resto roll, à vontade”, e os visitantes do mundo foram aderindo. O dinheiro deles vem buscar “carências” dos seus países de origem, “botando pra fora” sua libertinagem, porque a nossa “sociedade” é mais complacente, tendo em vista a ganância dos nossos líderes financeiros e as necessidades prementes da população, gerando situações degradantes e constrangedoras para nós. Sempre segui as leis instituídas e as regras de convivência, aceito-as por que nós, de um jeito ou outro as fizemos, porém ninguém determina quando devo fazer festa. No Brasil a mídia determina quando, como e por que devemos comemorar ou chorar. O carnaval é um evento do qual certos “grupos” se adonaram, faturando os tubos, engajando e manobrando o povo, e este fazendo o que for necessário, aparentemente feliz nos quatro dias,e nos outros? É subliminar, porém eficaz, a associação de drogas, bebidas e prostituição com alegria e felicidade. E é aí que os turistas balançam, reprimidos nos seus países. Sendo assim duvido das benesses dessas divisas, que não sei para que mãos vão e se valem o sacrifício de servirmos como uma big house of mother Joana. Gostaria de saber o percentual real de pessoas que se envolvem com o carnaval puro e simples, pela suposta alegria, clima sadio e a música. Somos bobos alegres, milhões de palhaços, servindo de joguete para as peripécias de malandros escolados, sem nenhum pudor ou moral, manipulando e distorcendo nossas tradições, sentimentos e a boa fé de um povo, nos entregando um produto falso, sem conteúdo, visando seus bolsos. E não fica nada de bom, nem uma música sequer que possamos lembrar alguns dias após, curadas as ressacas e liberado o cérebro das “coisas” que foram arremessadas nas nossas mentes. E ainda existe quem discuta a avaliação dada pelos “jurados” às escolas de samba, semelhantes a concursos de misses. Aí o rolo é entre eles, problema de quem concorre e “investe”, eles sabem no que estão se metendo, devem dançar conforme a música dos gurus. Então o que sobra são somente alguns novos viciados e prostituídos para o mercado, que tanto necessita dos seus recursos físicos e financeiros, tendo sorte se não for alguém que estimamos muito.
        Li este texto pro meu cachorro, um pastor alemão ligadão, ele o aprovou pois soltou três latidos breves, o que indica que talvez seja por aí. Tenho que dizer a meu favor, após este texto desgraçado, que acredito na humanidade, ela tem seus rompantes humanos e acho que barões da bebida, traficantes, senhores das comunicações, banqueiros e cafetões globais fashions também tem suas quedinhas humanitárias. Vendo o povo sofrido e querendo recompensá-lo pelo que lhes rendem o ano inteiro, pelo menos nos quatro dias do carnaval, eles talvez proporcionem o que existe de melhor aos preços compatíveis, para na quarta feira todos voltarem rebobinados aos seus afazeres e com seus couros prontos para serem escalpelados novamente. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 08 / 2008)

         O que parece e o que talvez seja: part one

         (ou adoradores de música, que não querem ouvir qualquer "coisa")

         Quando alguém emite conceitos sobre artistas ou álbuns musicais quaisquer, provavelmente está refletindo o cotejo que seu consciente ou inconsciente faz, destes em relação à sua bagagem de conhecimento sonoro, adquirido ao longo de alguns anos de escutas, portanto calcado em muita ou pouca base, conforme cada caso. Ou então está apenas replicando o conceito de revistas, TV’s, jornais, sites, ou da situação criada pela mídia responsável pelo astro em questão, que forja conforme o peso e a qualidade do que foi veiculado, um inconsciente coletivo. Com isso, esse consumidor de música sente-se incluso no sistema, ou no modismo momentâneo, que significa não ser diferente da correnteza imaginária que compele todos que a enxergam, a segui-la. Moda é algo que cabeças pensantes e atiladas, com auxílio de mídia paga, fazem com que um grande número de indivíduos sejam induzidos a adquir o mesmo produto várias vezes, modificado apenas em alguns aspectos externos, ou acrescentando algumas funções insignificantes em relação à principal. Obviamente tachando o como o último grito, o preferido pelas celebridades, usado por 9,5 entre dez estrelas e outros, para valorizar algo que se julgado racionalmente, seria descartado. Se considerarmos vestuário, cadernos escolares, automóveis, celulares, filmes, adereços, máquinas fotográficas, tudo bem para os outros, não para mim, poiscada um sabe onde o sapato aperta? Mas quando a moda for relativa à música, é um escárnio. Detalhes de danças, roupas, palavrões, bordões ou até o ritmo predominarem sobre algo onde o intelecto deveria agir de forma decisiva, sugere que o lado animal está dando as cartas. Então a beleza externa, o exibicionismo, a figura dos “artistas” predominam sobre o conteúdo, fazendo parecer boa uma “coisa” descartável. É uma idolatria incutida em figuras musicais bizarras e sofríveis, porém muito bonitas, ou escrachadas, ou célebres por qualquer motivo torpe e que “falam” a linguagem da galera, seja lá de que tribo for. Muitas vezes através de um marketing só de insistência da imagem, sem nenhuma filigrana mais refinada. Obviamente com o auxílio luxuoso de experts ou celebridades, que atestam a validade da outra. Claro que alguns poucos são isentos, mas a maioria depende disso para viver, expressando assim a “opinião” dos interessados.
         Música na sua forma mais comum, como a que anda por aí em rádios e TV’s durante o dia todo, todos os dias, na minha opinião, pode ser copiada e interpretada por qualquer vivente com facilidade, basta aprender o básico, que os pró tools( programa em que você canta e a voz sai afinada ), computadores, teclados, efeitos e o money farão o resto. Desta forma alguma coisa boazinha sempre vai brotar, e se houver uma mídia legal para ajeitar a caminha e fazer as cabecinhas, o cidadão poderá sem dúvida estar entre os grandes, pelo menos enquanto durar o cheiro do investimento. A galera tem pouca base e não distingue o extra classe do medíocre. Isso ocorre com figuras nacionais e internacionais, porém a seleção dos daqui é péssima, assim como o material que é apresentado para nós, os milhões de nativos, é de arrepiar. Para mim nunca existiu o bonzinho, o bacaninha, até que é legal, até que canta bem, faz cover legal, parecido com. . . . Com arte temos que ser exigentes ao máximo, já com outras coisas não sei. Vale sim o notável, o diferenciado, o único, o extra classe, que com certeza é perene, sobrevive a tudo e a todos. Também não se trata de exaltar o independente e abominar o que vende, deplorar o silêncio e evidenciar o barulho e muito menos achar que o bom é este ou aquele estilo, até por que a criação deles e moldes de grupos são por obra e graça dos comerciantes das gravadoras. Molde é o que serve para um elemento, dupla ou grupo ficar parecido com os outros sem pedir licença, não ficando nem vermelho, comparecendo para faturar junto e encostando seu burro na sombra do mercado. Em outras palavras, dando mais uma opção igual para a galera escolher. O público precisa se ligar quando surge uma figura “nova” dessas e avaliar logo, onde estão os pontos que estão sendo enfatizados pela mídia, tais como simpatia, sorriso contagiante, felicidade social, bundões, cochões, peitões, “inteligência” da hora com boas respostas ensaiadas, ou um clip incrível. Este é um detalhe auxiliar de vendas e precisa ser encarado pelo consumidor de música apenas como um adorno, só interessa o som, pois é só ele que vai sobrar. A mistura do clip com a música, conturba e adia qualquer consideração sobre o que realmente interessa. Traçando um paralelo simples, eles criam personagens musicais parecidos com os das novelas, onde a simpatia e a beleza, juntamente com frases e situações clichês que envolvem os atores, preponderam sobre textos e enredos mais elaborados, deixando a galera feliz por alguns momentos. Uma imagem agradável dos personagens e por consequência do ator que representa, na medida em que se acumulam, vão acrescentando no conceito da figura e na sequência vendendo qualquer coisa, até ideias.
         Traçando um paralelo neste aspecto, o jogador de futebol tem uma situação diferente de cantores, modelos e atores. Num dia são heróis e em outros são vaiados, porque precisam desempenhar contra opositores ferrenhos que também precisam mostrar serviço, recebendo de acordo com os resultados, milhões ou reais. Ao passo que os outros são funcionários teleguiados, marionetes e sem oposição ao realizar seu serviço, sempre com claques nos auditórios que nunca farão cara feia, play backs, pró tools, agendando perguntas e com seus financiadores sempre escondendo suas deficiências, ou seja, ambientando favoravelmente seus protegidos para um maior retorno seu. O único problema dos futuros astros é ser um dos “escolhidos” entre os milhões de “aptos”. Sobra o auto financiamento, ou a sorte de ser filho de alguém coroado, que detém a verba e os “caminhos”. Outro detalhe significativo a ser levado em conta, o know-how que as gravadoras, estúdios, técnicos de som, produtores, músicos adquiriram ao longo de sete décadas, buscando a perfeição. Especialmente na técnica de embalar, bolinar, enfeitar e adornar produtos, para que ele agrade e venda, especialmente nos USA, Europa e também aqui. No nosso país um exemplo fácil: já vão 20 anos da massificação de sertanejos, axés, pagodes, românticos e correlatos, sempre pobres musicalmente, mas que continuam vendendo shows e álbuns, apenas com adereços irrelevantes se destacando, como ritmo, palavras chaves como levantar poeira, é festa, na boquinha, atoladinha. Ou alguns bordões como chupa que é de uva, senta que é de menta, palavrões especiais para crianças e adolescentes, temas instigantes como bundinha, garrafa, cornos, dor de cotovelo e climas de felicidade hipócrita ou tristeza cínica. Isso tudo transmitido por rostos e vozes de charlatões e canastrões adequados à proposta. Eles jogam sempre com os mesmos elementos, alternando-os e mantendo o lucro das empresas, com as marionetes indo e vindo e o circo a todo vapor. Mérito dos profissionais citados acima, que conseguem dourar a pílula para a galera, que não é exigente, se contenta com pouco e não procura ampliar seus horizontes por conta própria, aguardando sempre pelos novos que as empresas irão lhe esfregar na cara. Se torcermos estes 20 anos, não cai nada pelo menos razoável dos estilos mencionados, pois centenas desapareceram e os que ainda estão por ai, ou são os “novos” ou são velhos mantidos por altos investimentos, para continuarem rendendo financeiramente. São apenas grifes elaboradas, sem conteúdo.
         “Mas meu senhor”, exclama uma garota, “eu gosto de dançar, isso que você chama de lixo”. Ok, ela como muitos também gostam. A dança compreende movimentos sensuais, acrobáticos, ritmados e sei lá mais o que, em conjunto com caras e bocas que se bem treinados no espelho, trazem bons resultados. Acrescendo a malhação em academias, teremos corpos mais atraentes, que irão atrair, mais roupa e cabelos da moda e um conjunto perfeito surgirá. Então com tudo isso, só precisam do ritmo para mexer o esqueleto, mostrando o que cada um tem para o mundo, principalmente se houver platéia, quando o gosto pela dança cresce. O natural seria ouvir um som, ele envolver a alma do ser e este sair dando cabeçadas, talvez até dançando, mundo afora. Não é isso que ocorre, as pessoas dançam qualquer “coisa”, para a priori mostrarem seu produto ou apenas executarem exercícios agradáveis, mas nada a ver com a qualidade do que estão ouvindo. Claro que, se o que estiver rolando for da hora, melhor, a combinação fica best of. Então a afirmação de que é bom pra dançar, dança, por que eles dançariam de qualquer maneira e qualquer “coisa”, com ritmo. A pergunta fica, se melhorasse a “coisa” que flui pelos ouvidos, talvez a vida ficasse um pouco melhor?
         No exato momento que colocava o ponto de interrogação, recebo um e-mail de Índio Bráulio, dizendo estar lançando os Zebus Titubeantes de 11/12 Avos Novaes, filho do Casquinha de Siri. Eles fazem um sertanejaulão pop universitário, sofrido, entrevado e choramingado. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 07 / 2008)

Expoliação econômica via exploração cultural

        Há 3 décadas atrás viamos na cena musical brasileira a presença das gravadoras multi nacionais, enriquecendo na exploração de uma rica cultura musical( a nossa!). É óbvio que boa parte dos lançamentos eram comuns, mas sempre tinham alguma qualidade aparente, como voz, composição, arranjo além de apresentar nossa diversidade de ritmos. E os nossos maiores expoentes, Chico, Elis, Tom, Gismonti, Mutantes, Milton, etc, eram lançados em vários outros países do mundo mostrando que nós tupiniquins tínhamos algo mais além do futebol. Isso tudo convivendo com as boas e más influências estrangeiras.
        Com o final dos anos setenta, a massificação da disco music e um provável esgotamento da criatividade dos nossos, as gravadoras passaram a perceber que a grande massa não requer tal refinamento musical, assim como o planeta todo. Basta alguns enfeites musicais como acentuação do ritmo, letras agressivas ou do quotidiano, postura do artista diante da vida e seus problemas e já é o suficiente para o cidadã o empunhar seus trocados e adquirir aquela nova obra prima. Trabalho racional e competente da produção, vendendo um produto inferior.
        Este fato para o mundo todo não importa tanto, porém no nosso país essa distorção se acentuou drásticamente nas décadas seguintes, tendo em vista sermos terceiro mundo, não controlarmos nossa cultura, o que sempre foi feito pelas gravadoras de fora. Chegamos nos 2000 numa pobreza que chega a ser hilária e triste. Houve o desenvolvimento de um produto e não da arte, com junções e misturas de vários ritmos e estilos, danças, trejeitos, caras e bocas e conteúdo que é o fundamental, quase nada.
        O nosso título menciona exploração econômica, ou seja, as majors(gravadoras) escolhem na nossa população musical os que mais lhe convém no que tange a custo, beleza física, desembaraço nas entrevistas e alguma voz, ou seja um marionete perfeito(ligue a televisão e constate o fato). Após isso, fornece repertório, roupas, maquiagem e dita posturas e respostas.
        Com isso tudo feito, o "astro"é passado para o domínio público pela valorosa mídia, que de forma singela e carinhosa nos fará adquirir o embuste. Em resumo, os gringos escolhem um dos nossos, nos empurram como "the best" e nos lhes damos nosso suado "money". Ficamos com a "obra" e eles com nosso dinheiro.(Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 12 / 2006)


Arte x Produto

         Arte é aquela em que o autor se expressa e as pessoas tentam entender, interpretar e sentir. Quando o autor faz aquilo que as pessoas já conhecem e estão esperando, com algumas alterações, adicionando ou subtraindo para enganar e dar a entender que é algo novo, então temos a cópia ou adaptação de algo já feito. Isso ocorre á todo momento em propagandas, filmes, roupas, automóveis, novelas, sapatos e na música. É o produto. Como exemplo, quanto samba-enredo já fizeram e parece que são sempre as mesmas dez músicas a tocar, com seus "laia laia", só alterando a letra que geralmente enaltece uma personalidade, época, um local ou uma empresa. Este tema central, normalmente banal e pré-negociado com o homenageado facilita o trabalho do autor, pois ele só precisa elogiar e destacar, não aprofundar sentimentos ou pensamentos. E a melodia... ‘damos um jeito’.
         Na música existe o que considero fundamental, a melodia, espécie de impressão digital, não existe outra igual a não ser que seja cópia. Existem 7 notas musicais e suas variantes, sendo elas dispostas em infindáveis sequências, dando origem à melodia que pode ser boa ou não, conforme a qualidade e o gosto. Ouvindo algumas vezes uma música, seja com voz e violão ou uma banda de rock, ou ainda uma orquestra de cem componentes. Nós podemos identificar a melodia eresumi-la no assobio, e assim avaliar a qualidade da impressão digital daquela música
         A qualidade musical vem em decréscimo lento e gradual nos últimos 30 anos, principalmente no nosso país, e o convívio diário com produtos inferiores alteram nosso senso crítico, pois quase não temos mais a arte para comparar e acabamos aceitando o que nos empurram. E até usamos certas expressões para acomodar o circo existente com o nosso cérebro, do tipo "Até que ela é bem bonitinha", "Dá pra dançar", "O som não é tão bom, porém aquele traseiro", "A voz até que é legal", "Eu gosto de bem barulhento", "É melhor que muita coisa que anda por aí", "Tem um ritmo legal", "É bem pesado", etc, etc.
         É difícil compor uma boa melodia, que precisa de inspiração, criatividade e algo mais, vide Neil Young, Miles Davis, Chico Buarque, Beatles, Mozart, Tom Jobim, Dylan, Joni Mitchell, Bethoven, John Coltrane, Marley, Led, etc nos seus períodos mais prolíficos. Essa dificuldade não é empecilho para as gravadoras mundiais, que precisam sempre de material novo para obter seus milhões, portanto põe em prática alguns artifícios. Os de mídia e venda estão aí, no dia a dia e são facilmente reconhecidos e detectados, mas os que burilam o produto, o tornam consumível e atraente para o seu segmento por algum tempo, exigem algum feeling dos executivos, técnicos e arranjadores. Esses profissionais das gravadoras procuram esconder a mediocridade, a pobreza do material ou a cópia, com artifícios vários, como acentuação do ritmo (funk, pagode, axé, reggae)do palavreado e palavrões(rap,hip-hop), da técnica instrumental, climas, efeitos e prolongamentos insípidos(rock progressivo, trip-hop, jazz, metal), colagens de timbres, barulhos, maneirismos e trejeitos nos vocais e guitarras, climas, produção na sua excelência(rock, pop, alternativo) e assim por diante. Não estamos queimando os estilos mencionados, mas sim querendo separar em cada um deles os melhores, os que vão permanecer por décadas, dos que nem para adorno de uma estante servirão.
         Exemplo de melodia excepcional, Eleonor Rigby de Lennon/ Mccartney, que pode ser desde assobiada até ter um arranjo para orquestra completa, se passar pela interpretação de qualquer um dos medíocres que habitam nossas TV's , eles apenas maculariam a obra, porém não destruiriam a melodia, que estará sempre ali.
         Quando alguém consegue compor uma boa melodia, está com a arte nas suas mãos, quando ele de forma burocrática cola, sampleia, copia ou enjambra, apenas conseguiu mais um produto que irá se desgastar e perecer em pouco tempo por não ter substância. Essa arte após ser composta será aprimorada e completada nos arranjos, ritmos, roupagens, letra e harmonias, enquanto o produto terá sua fase fundamental nestes itens mencionados.
         Então arte tem sua impressão digital e pode também ser produto, porém o produto não a tem e nunca poderá ser arte. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 05 / 2006)

Fim de ano

         Já faz algum tempo, foi em 31 de dezembro de 2005, na virada do ano na casa de parentes meus, onde assisti de forma compulsória ao show da maior rede de televisão do país juntamente com as 4 ou 5 maiores gravadoras multi-nacionais que aqui habitam e faturam. Elas aproveitavam um momento quase mágico na vida das pessoas, que anseiam por dias melhores, progressos financeiros e afetivos apenas pela troca de ano, colocando mais pilha com depoimentos de participantes da rua e pseudo personalidades, fogos de artifício e frases ufanistas dos apresentadores para simplesmente vender seu Peixe. Este composto pelos de sempre que infestam a mídia no cotidiano, novos que nunca farão falta e velhos medianos ressuscitados para uma audiência com pouca cultura musical e senso crítico debilitado por absoluta falta de opções nos últimos anos.
         Era um mix de sertanejo, funk, pagode, axé, rap, calipso e suposto rock, desfilando numa sequência alternada que não conseguia mascarar a falta de qualidade e conteúdo, com as superficialidades imperando como danças, trejeitos, caras, bocas e os itens essenciais como melodias, débeis e comuns a cada gênero, harmonias pobres e surradas, letras estúpidas, banais e corriqueiras e o ritmo, aí sim, o Brasil é rico porém, essas figuras não tem nem a capacidade de criar ou de acrescentar nada, além do que a proposta é fazer o comum, o reconhecível por ser mais cômodo e econômico.
         Este tipo de “proposta musical” precisa de um em torno mercadológico, com caras bonitas e/ou simpáticas, postura adesiva ao momento, danças e refrões que possam ser acompanhados facilmente(o que dá a impressão do assistente participar como ativo do evento), do tipo pré programada-repetição-re-re-repetição-finalmente aprendeu, dançou e comprou. O apresentador facilitando tudo(claro, o astro é um cliente), a platéia e as câmeras da TV sorrindo e babando sempre numa falsidade repugnante. Tentativa clara de faturar mais uma vez na semana seguinte, com a galera olhando na TV e depois caindo nas lojas para adquirir seu artista favorito eventual num impulso de fim de ano/novo.
         Para quem conhece o passado mais distante da música nacional, sendo reconhecida no exterior com inúmeras gravações feitas pelos gringos, jazistas inclusive, aquele 31/12/05 proporcionou sensações de frustração e vergonha por aquela ser a música do Brasil, que simplesmente vem sendo esfacelada. Claro que eu não espero nada de empresários estrangeiros e executivos nacionais pressionados, que visam custo baixo, preço de venda maior possível e com isso o lucro mais justo para eles, mas e nós?
         Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 04 / 03 / 2006)

MODA neles mané! Uma reflexão

         Estamos passando por tempos difíceis - como sempre -, mas o atual tem características diferentes, neste terceiro mundão em que até os alienígenas perderam o interesse, ou nós por eles, por não serem mais tão fashion assim. Porém os espertalhões de carteirinha não saem daqui, são parasitas profissionais que promovem situações pré-fabricadas, comandando e orquestrando o consumo da galera, sempre pronta a investir seus recursos em novas ideias induzidas, novas formas de aparentemente modificar e melhorar suas vidas. O resultado são espasmos de alegria e felicidade, tão restritas que não conseguem ser mensuradas ou definidas, se houve retorno ou “se valeu a pena”. Logo surgem outras oportunidades sugeridas e de pronto aceitas, fazendo esquecer aquele passado recente agora já brega e ultrapassado. Nesta “malandragem” uma das palavras chave é MODA, que abre corações, cofres, carteiras e faz passar o credit card ensandecidamente. MODA é um item interessante a ser interpretado e questionado, como tudo, visto que a maioria a segue para não parecer por fora e estar em conformidade com o último grito de alguém ou de uns certos alguéns, quase sempre momentâneo, sem substância e sem futuro. O único benefício que reconheço advir desse sistema comercial de certos alguéns ditarem essa MODA, corriqueira e banal, assídua e previsível é o emprego que ele proporciona, apesar dessa mão de obra ser quase toda do terceiro mundão, tipo espoliada. Na maioria das vezes a MODA substitui algo que está funcionando plenamente, por outra que uns certos alguéns teimam em classificar de fashion, sendo que eles mesmo criaram e empurraram as anteriores com a mesma bandeira.
         Recentemente li o best seller “MODA, modismo e Modesto” do designer e escritor mexicano Modesto Del Rincon, que destaca a verdadeira história desse artifício, desde seus primórdios até os dias atuais, onde os “níveis de tramposidade” – expressão consagrada na prática por Jorge Nuca, o maior tramposo que Ventos Verdes, ao sul de Ventos Sopram já viram - beiram o absurdo, onde até nas seitas e religiões os espertalhões operam com muita classe e segurança. A MODA e seus “gênios”, criam milhares de manias, combinações, maneirismos, “aplicadas” e imposições psicológicas, para que milhões de futuros adeptos as comprem e as sigam religiosamente, e sejam felizes. Ao que parece não podemos viver sem estes tipos, pois possuem dons e dotes especiais, conseguindo escolher por nós, de forma antecipada, o que gostaremos de usar e fazer nas futuras ocasiões importantes das nossas vidas, nos transformando num exército maravilhoso de seres iguais. Modesto destaca os primeiros sinais de MODA há 5000 anos atrás no Egito, quando o povo procurava imitar feições e trajes dos faraós e suas famílias. Cita a revolução industrial, quando iniciou a produção em escala, visando a venda em maiores quantidades, necessitando de apelos mais substanciais, como a valorização do tecido pelo vendedor, no corpo a corpo com o comprador, pois não haviam os meios de comunicação. Destaca as mudanças depois da primeira guerra mundial e principalmente depois da segunda, quando a comunicação e o marketing estavam se desenvolvendo, com mitos, ritos, apitos e ditos sendo massi - misti – desmisti(ficados), ao sabor do faturamento das grandes empresas e seus gurus fashion demoníacos. Na música os mentores do sonolixo dominante (lixo sonoro em voga), conseguem além de vender o entulho causar em cabecinhas inocentes estragos mais profundos, que inibem a personalidade e o raciocínio próprio, que permitiria identificar seu gosto e necessidades particulares, sendo diferente dos outros seres, certamente lhe trazendo mais felicidade por ser o autor das suas escolhas. Apesar da péssima qualidade do geral musical, o bom marketing consegue passar para os induzidos a impressão que foi ele próprio que escolheu um pires, um daniel, um barraco quebrado, uma ivete ou o juta que dario. Cantam e dançam suas músicas de forma mecânica e instintiva, como se o serviço marketiniano tivesse depositado o lixo na ponta da língua ou nos pés do induzido, e no ouvir a senha de acesso ele robóticamente efetua a tarefa para que foi programado.
         Modesto Del Rincon, ao lado do cantor Villalba Villasboas Villareal, foram os mentores daquela campanha meritória na cidade do México em 2005, quando estabeleceram um pacto com os seus mais de 20 milhões de habitantes via mídia, em prol da paz mundial. Nela nenhum cidadão mexicano poderia defecar por 24 horas, liberando apenas crianças até 5 anos e anciões acima dos 70. Esses estariam livres desse compromisso, sem precisar carregar qualquer culpa para o futuro. Aproveitando o momento a prefeitura escalou centenas de equipes de limpeza e manutenção de esgotos, realizando um esplendido serviço nos dutos, por demais saturados pelos milhões de contribuintes defecando diariamente por décadas. O famoso programa dominical da televisão mexicana, “Estupendo – el show de la vida” passou os seis meses seguintes catando e expondo histórias maravilhosas de meliantes que se regeneraram naquele dia, vendo o sofrimento do povo, irmanado pela paz. Segundo o Estupendo, vários assaltos, golpes e assassinatos foram pelo menos protelados, muitos salvamentos ocorreram por iniciativa de homens maus, o gato preto e o assassino da serra elétrica foram perdoados por seu passado, assim como o número 13. Modesto e Villalba foram condecorados pelo prefeito da cidade em um programa transmitido nacionalmente. Cada um levou duas medalhas, uma pela paz e a outra por um esgoto mais humano, que segundo Aristides Blasfemus, secretário titular dos esgotos, “este alívio imediato de 24 horas e a manutenção preventiva remoçou o velho esgoto em no mínimo dez anos”. Modesto publicou logo em seguida, desta vez sem muito sucesso, “As apreensões e as agruras de um esgoto”, enquanto que Villareall lançou seu oitavo álbum, “Não defecando por um mundo melhor”, também sem grande sucesso. Além disso, os dois formaram um grupo musical de mariachis, Rincon de Villareal, que também não foi feliz financeiramente. Outro fato decorrente dessa campanha foi a perseguição que a população empreendeu, via Estupendo e os militares, ou vice versa, aos que furaram a campanha e defecaram naquelas 24 horas. Disponibilizaram telefones 0800 para receber denúncias e pistas para os furões, os quais quando identificados e comprovados eram expostos na mídia, como inimigos da paz e dos esgotos. Alguns excessos foram cometidos, como a denúncia de alguns campos de concentração, sob comando de um tal de sargento Garcia, para os que defecaram por puro exibicionismo, sem realmente comprovarem que estavam em situação final de desespero. Em 2007 Rincon e Villareal foram defenestrados da sociedade mexicana, quando pleitearam o “Não defecando pela paz II”, quando a população obviamente não estava mais a fim de realizar sacrifícios, nem pela paz e nem pela guerra, o povo quer pão, circo e evacuar, pois fomos concebidos para isso e por sinal, somos muito bons nisso.
        A propósito desse tema MODA, semana passada um velho amigo enviou um artigo interessante baseado nas pesquisas da Xywyonikon Enterprises, que respeito muito por já ter utilizado informações suas em outras ocasiões. Esta pesquisa aborda semelhanças de atitudes do ser humano em relação aos animais, e o que me chamou a atenção foi a do cachorro correr atrás do próprio rabo. Ele busca afanosamente aquilo, quando consegue, imagino a dor e o arrependimento, ou não era tudo aquilo que pensava e preciso de outro rabo mais moderno e com mais “recursos”. A maioria nunca atinge seu intento, ficando somente perda de tempo, recursos e expectativas, provavelmente indo até o fim de seus dias tentando. O artigo que interpreta a exaustiva pesquisa foi escrito pelo estudioso Clay Clayhorn Clayborn, da Lightfoot University de Manchester, e quero crer é bem embasada e fundamentada, pois ele é um famoso filósofo e ensaista. Clay faz a analogia do cachorro perseguir seu próprio rabo com os humanos, que perseguem a MODA nas roupas, carros, relógios, celulares, músicas, computadores, onde a satisfação nunca se completa, pois aquilo que ele busca depende, além da alma de “algo inanimado”, de outros ingredientes complementares, como uma claque disciplinada e pronta para adorar a aquisição, ressaltar as qualidades superiores do comprador, sua inteligência de ter escolhido aquilo e sua capacidade de negociar, conseguindo a com “aquele preço”. Dificilmente teremos uma claque voluntária, disposta a bajular um semelhante seu e concorrente, que normalmente, pelas atitudes, é considerado um boçal. Então sem esses complementos essenciais, essas coisas são maravilhosas quando na TV e na vitrine, nas nossas mãos vão perdendo o encanto a cada minuto, pois elas não tem conteúdo, são apenas MODA e visam apenas a troca do dinheiro suado do “vivente” pela coisa fashion do “vivo”. Até porque outros também as vão adquirindo, até por preço menor se aguardaram a queda pelo desgaste inevitável do confronto “novidade X tempo”, tirando a primazia dos primeiros viventes. Então aquelas coisas são apenas paliativos do dia a dia e para as pessoas que possuem muitos recursos financeiros, menos valor ainda elas terão, pois esses trocam mais rapidamente e num universo mais amplo.
        O intuito desse texto não é diminuir o consumo, pois todos nós dependemos dele neste “modelo” que restou e que certamente está esgotado, mas sim suplicar pela melhora do que é oferecido, até para dar um gás no coitado do “modelo”. Os donos do planeta ou da nossa nação precisam ser mais criativos e sensíveis, pois eles estão lidando com seres humanos, que ao que me consta, ainda estamos acima de ratos e baratas, pois temos RG e CPF e algum para gastar em bagulhos. Preciso deixar claro que quem escreve estes textos é um caravelho, inclusive completo 55 anos no mês próximo, então por esta sociedade de consumo de coisas ruins, como eu a classifico, já estou por fora, démodé, preciso me retirar da cena e opinar sobre bolinhos de chuva, bolachinhas e remédios. Onde já se viu uma figura com essa quilometragem ainda estar preso a musica, e por fora. Em minha defesa diria que é na música que encontro e avalio todas as outras coisas, baseado na imaginação e na cultura que ela proporciona, somente ouvindo a. Mas para que isto aconteça não pode ser qualquer musica, nem mesmo uma boazinha, precisando ser aquela dos deuses, do transcedental que só os diferenciados e os excepcionais conseguem proporcionar. Muitos batem pé na música antiga por que talvez tivessem tido seus melhores momentos naquele tempo, e aquelas músicas eram sua trilha sonora, isso não quer dizer que eram as melhores, eram com certeza a trilha sonora deles para os seus momentos bons e ruins. No meu caso o meu melhor momento é sempre o agora, e eu arrasto comigo todas as trilhas que me impressionam, sem levar em conta o momento ou o fato em que me deparei com ela, valendo por aquilo que elas continuam proporcionando aos meus sentidos, alma e cérebro. Está na cara que o comunismo, capitalismo, socialismo, etc. nas suas diversas variações e combinações estão falidos, por serem geridos com a voracidade e egoísmo desmedido humano. Mais na cara ainda que o que vier por ai, proposto por esses mesmos como “a alternativa mais viável para o momento” é outra picaretagem em alto nível. Em todos esses modelos, sempre poucos dando todas as cartas para si mesmo, manipulando e escolhendo os dirigentes políticos, através da nossa ingenuidade e falta de cultura, seja em que regime político e social for. Essa situação se reflete em todas as áreas só colaborando em nos cegar cada vez mais, apesar de todo o arsenal que temos na comunicação, nos restando, como sempre, tentar alcançar nosso próprio rabo. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros / 04 / 02 / 2010)