Frei Frickt vislumbrou o futuro

        Nós nos acostumamos a viajar no tempo, através do cinema e de séries que abordam isso com naturalidade e freqüência, parecendo normal quando um novo filme volta ao tema. Outras experiências também são colocadas ao lado dessas mencionadas, como transpor para outras dimensões ou aportar no céu e voltar para consertar ou terminar algo que ficou pendente. Se tudo isso fosse possível, em pouco tempo teríamos grandes grupos monopolizando e tirando proveito dessa facilidade, cobrando dos viventes estas possibilidades únicas de se deslocar no tempo. Por exemplo, quanto custaria uma passagem para ser jogado na arena dos leões na Roma antiga, sendo retalhado junto com os cristãos, ou participar in loco da construção de uma pirâmide no Egito, carregando pedras até mais não poder. Atirar-se de pára-quedas sobre a Alemanha nazista no dia D, ou estar na boca do caixa recebendo um prêmio milionário de uma loteria de um ano qualquer, ou até assistir hoje a copa de 2014.
        Delírios e fantasias à parte, algo parecido ocorreu em março de 2010, sendo relatado a mim por Verona Unomile, indicado por um Óscar do planalto central, via e-mail. Unomile me descreveu fatos ligados a um sujeito esquisito, Freiberger Frickt, que teria informações quentes sobre o futuro da música e outras coisas, pois havia viajado no tempo, mais precisamente nos anos pares entre 2023 e 2033. Vamos então por partes, pois o relato foi longo e um pouco confuso. Antes de tudo vamos mencionar o histórico de Frickt, que desde sua infância tentou mudar o mundo e sua terra, Mato Sem Cachorro. Aos 14 anos, junto com seu bodoque quebrava as lâmpadas da cidade quando da lua cheia, querendo ficar apenas com a luz do luar. Aos 18 recitava Odair José e Maradona para ovelhas, quando se dedicava ao pastoreio. Aos vinte fugiu com uma das ovelhas para o Paraguai e criou “A Aliança para um mundo melhor”, aliando sua fome com a vontade de comer do francês Junot Cabidet, líder de um grupo de extermínio, passando a comprar cheques sem fundo do comércio a 10% do valor nominal, cobrando logo em seguida do emitente, com meios não tão ortodoxos e juros esbaforidos.
        Aos 22 voltou ao nosso país, transformando-se em educador na cadeira de cheques a cobrar, realizando seus ensinamentos na paróquia da cidade de Araraguera, sob a tutela de madame Verga Mota, uma benemerente local. Esta mais tarde se tornaria a madrinha de Frickt. Com o passar do tempo, madame foi notando o desembaraço e a destreza com que ele lidava com seus pupilos, vislumbrando horizontes mais positivos, inclusive para ela mesma. Estávamos nos anos das expansões em volume das religiões no nosso país, pelo aumento geral da fé, conforme as descrições de Unomile, que acompanhou de perto este enredo enredado. Certa vez Verga encontrou uma antiga colega de peteca, madame Urineide, tendo com ela uma prosa produtiva, comentando sobre a esperteza e o discernimento do seu novo pupilo Frickt, no trato com indivíduos. Urineide mencionou que seu primo, Elvis Kostella estava desenvolvendo um trabalho novo na sua comunidade, que parecia estar desnorteada e carente de novos caminhos e que só estava faltando um líder perspicaz, engenhoso e indutor. Verga ficou ruborizada, porém conseguiu indicar Freibergen Frickt, na seqüência Urineide comentou que retirando “bergen” do nome restaria Frei Frickt, ideal para que um passado bacana fosse anexado a ele. A simples menção ao novo Frei da oportunidade que lhe surgia, o fez dançar o rebolation para Verga Mota e depois chorar copiosamente, dizendo que este tipo de coisa seria tudo para ele, que sempre sonhara em ser um líder onde seus fiéis lhe dessem dinheiro, pois só assim ele poderia acreditar neles.
        Kostella entrevistou Frickt e na segunda resposta soube que estava diante da pessoa certa, o líder, o indutor, o pregador, que poderia ajudar aquela gente inocente e necessitada e ao mesmo tempo realizar bons negócios. Locaram um prédio no cume de um morro, rodeado por árvores e teto solar, chamando-o de Solar das Vergamotas Urineide. Quanto à seita, a chamaram singelamente de “Caminho do Frei Arrependido”. É claro que este nome merecerá uma explicação aos futuros devotos, que lhes será dada oportunamente. O engajamento de Frickt trouxe ao Kostella algumas ideias plausíveis e perfeitamente exeqüíveis, como a volta de Biro Lero, o incompreendido precursor da “Portabilidade das Almas”, que estava passando dois anos recluso na penitenciária de Mamão Verde, a três km de Araraguera. Kostella alojou Biro no solar e estipulou um salário inicial de um coroinha em experiência, pois soube que a portabilidade custava vinte mil reais, mas que numa empresa como aquela ele cobraria 2 mil pelo seu trabalho, sendo que se houvesse mais pacientes ou “viajantes” simultâneos, ele aplicaria a fórmula Mendonça, reduzindo o custo per capita. Outra providência, esta a pedido do Frei, selecionar uma loira e uma morena para dançarem durante os sermões dele, para que a coisa toda ficasse mais elétrica, animada e sedutora. Lero indicou Índio Bráulio, que na época do auge da portabilidade, compunha a trilha sonora do serviço. Bráulio também seria útil descolando um fundo para cada semana de sermões no solar, tornando tudo especial e exclusivo, causando inveja na concorrência.
        Em fevereiro de 2010, toda essa engrenagem e mais um pouco começou a funcionar a pleno, e em março uma câmara especial para a portabilidade ficou pronta, tendo capacidade para dez unidades humanas por sessão, com três delas diárias, sendo uma matinê mais acessível. Como o sistema portabilizante estava sendo implantado, muitos fiéis ou colaboradores, ou ainda portabilizados em potencial demonstravam receio sobre os resultados, Frei Frickt se prontificou a ser a cobaia, pois ele gosta de futebol e teria interesse em conhecer os estádios pelo mundo afora. O 24 de março foi estabelecido para que Frei recebesse aquela dádiva de Lero, sendo que o evento seria aberto ao público fiel, para que a prática se popularizasse. Como vimos em texto anterior, o ritual secular portábil requer um litro da cachaça Elesbão –que substitui com vantagem os quatro litros de vinho utilizados até o meio do século passado-, ingerida 15 minutos antes do início, durante é ministrado 200 ml de sabão líquido lavanda via oral, chicotes de couro cru para amaciar o cidadão e alicates para destacar unhas, dos em estado de portabilização, cujas almas renitentes recusam o inexorável processo. Mais Índio Bráulio & os Bolas Murchas entoando cânticos milenares, com letras de protesto em arranjo emo core, numa potência absurda. Estes artifícios mais violentos, exceto o Bráulio vociferando, só são empregados em última instância, quando a alma do ente difícil não está aceitando a nova situação proposta por Lero. Pelas estatísticas, 64,8% dos casos necessitam as chicoteadas e o alicate. Os atendentes que participam da cerimônia, chicoteadores, ministradores de sabão, arrancadores de unhas e o próprio Lero, usam protetores auriculares com fones rolando a narração de jogos de futebol em chinês e três velas protetoras, semi-acesas, da época dos Cavaleiros da Távola Redonda, para ficarem imunes aos efeitos da portabilização.
        Na data e hora aprazada deu-se início ao evento portábil no solar, com efeitos sonoros, gelo seco, iluminação profissional e Biro Lero vestido de Germes, deus dos vegetais, a loira e a morena trajadas de Britney e Pocahontas. O futuro portabilizado demonstrava muita inquietação, até no ato dos chicotes e alicates. Era uma visível desobediência civil da sua alma, apesar das palavras de ordem de Germes. De repente, Frei se levanta e começa a quebrar tudo na sua volta, enfurecido, sem algumas unhas, apresentando maus tratos e desnorteado, parecendo estar numa guerra nas estrelas ou num grenal. Ele foi contido pela turma dos Bolas Murchas, que o imobilizaram diante da estupefação geral, em ver seu líder em tamanho descontrole. Biro ou Germes de pronto ordenou que Índio e os Murchas tocassem hits do momento e em 10 minutos a galera já estava na farra, com auxílio da copa que começou a funcionar a todo vapor, com a Elesbão em oferta.
        Nos dias seguintes, mesmo sem saber ainda o porque do nome “Caminho do Frei Arrependido” e do que havia acontecido ao Frei Frickt, a galera voltou com mais força, querendo ajuda, dicas sobre qual caminho a seguir e o que fazer com seus salários. Frei foi substituído por Biro Lero, passando a se chamar de Frei Lero Lero, dando seqüência aos trabalhos. A vantagem foi que Biro incorporando Germes, em homenagem à seleção brasileira usava barba postiça verde, chapéu de viking e sunga amarela, visor de mergulho azul e duas agulhas de crochê saindo de suas narinas. Ele estava simplesmente irreconhecível. Frickt recuperou em parte sua sanidade, mas dizia ser o Flash Gordon, antigo herói que andava pelo futuro. Lero e Kostella promoveram uma investigação interna para equacionar o que havia acontecido de errado naquela portabilização, pois Lero havia estudado e pesquisado com médiuns, zagueiros e atacantes por pelo menos três trimestres sobre o assunto. O que mais se adequou ao acontecido foi narrado por Verga Mota, que duas horas antes do evento levou Frei para um lanchinho na bodega do Tibúrcio Agranel, onde ele se empanturrou com cinco big pastéis de carne de porco e pimenta, maxi engordurados e uma batida “special” de abacate com banana, mamão e aipim, esse depois confessado por Tibúrcio, para “engrossar” a vitamina. Verga confidenciou que a batida parecia preparo de cimento, mas que o Frei havia entornado tudo. Segundo alguns doutos, o aipim e a carne de porco colidem frontalmente com a Elesbão, tornando o resultado entre o inesperado e o inexplicável.
        Então vamos nos deter em Flash Gordon, antes um líder espiritual, agora um herói que viaja no tempo, porém sem nave ou coisa que o valha e sem perspectivas de viajar pelo menos de ônibus. Verga Mota, por pena tornou-se sua madrinha e Urineide sua tia. Elas locaram filmes de Flash Gordon, transformando a casa de Verga em uma nave espacial e reconstituíram as roupas do velho herói, para que o ex Frei as usasse. Agendaram palestras e entrevistas em escolas, universidades e na mídia da região, além de apresentarem um novo amigo a ele, o barra limpa Verona Unomile, que o conquistou se fazendo passar por Robin, daquela dupla famosa. Agora estamos prontos para relatar o que Flash viu no futuro, no que tange ao aspecto musical, que é o que mais nos interessa. Mas isso fica para uma próxima, possivelmente para o dia dos pais, pois temos que checar de alguma maneira a veracidade das barbaridades que provavelmente serão cuspidas por Flash e Robin. Finalmente deixo algumas dicas de som de Índio Bráulio, publicadas no Diário D’Onofre de Araraguera, edição de 05/05/10, confiram: Grupo Tragédia, Adolfo & os Brigadeiros da Vovó, Os Recíprocos e Lamartine Brabo & As Feras Decodificadas. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 20/05/2010).

Índio Bráulio no seu fim de ano

        Conforme relatei há alguns meses, uma grande oportunidade havia surgido para Índio Bráulio numa rede de televisão, para encabeçar um programa musical tipo padrão de fim de ano, com possibilidades de virar usos e costumes para a eternidade, vide correlatos. Em princípio o roteiro seria aquele que está afixado na sala da direção de qualquer rede de televisão que se preze, e preze seus resultados, ou seja um show de irreverente mesmice, caretice anárquica e apelação sem melindres e consciências pesadas. Normalmente Bráulio tem uma sorte diferente das outras pessoas, ela tem um algo a mais ou a menos, que o faz ser o mainstream mais underground do planeta e nos dias de hoje, o único alternativo diferente de toda essa categoria musical. Há pelo menos 20 anos o rock alternativo é um mainstream legalizado e com firma reconhecida em cartório, exigindo dos que o executam, com raras exceções, que apenas sigam seu formato não precisando melodias incríveis e nem letras inteligentes, mas apenas seguir o modelo que foi criado no início dos 80. Ou seja, contando com que as semelhanças fundamentais prevaleçam e os mínimos e desprezíveis detalhes causem o diferencial no mundo sonoro “alternativo mainstream”. Com Bráulio aconteceu como sempre o inusitado, sua sorte foi alterada pela direção da televisão, que trocou o diretor do programa, transferindo a responsa para o filho de um dos maiores acionistas da empresa, visto que esta ferinha só inferniza a vida de seu pai com cheques sem fundo, brigas, porradas de carro e até assaltos e raptos à nível de curtição. Então Belze Boo, o Zebu, filho de Horaciano e Cathy Boo assumiu o controle do Bráulios Show, com muitas ideias e querendo agradar principalmente seu papi.
        Infelizmente o programa foi exibido apenas no estado do Maranhão, a titulo de teste com o nome de “Cacique Índio Bráulio e sua Tribo Forever”, pois o responsável pelo núcleo deste tipo de programa na rede não quis se responsabilizar por aquela obra, sendo exposta para todo o país e competindo com a de um rei, que apresenta a sua com o formato estático, indesmanchável e tiro certo há décadas. Seria suicídio, conforme relata José Carreiras De Pó, arriscar o futuro promissor de um Bráulio com o trabalho de direção de um amador, com nenhuma experiência em televisão e no show business. Morto descreve que De Pó aos prantos estava em um dilema, de um lado Horaciano Boo exigindo seu filho em nível nacional, enquanto seu cargo e os demais acionistas apontavam para a prudência.
        Recebi a cópia do programa, com observações feitas pelo maestro Arquivo Morto, que nos últimos meses se transformou no meu maior fornecedor de fofocas deste mundinho. Assisti ao programa em paralelo com o relato via e-mail do Morto, após respirei fundo por diversas vezes, comi quatro sacos de bolachas, assisti alguns dos desenhos mais sinistros do Johnny Bravo, disse algumas frases desconexas e pulei amarelinha com meu cachorro. Mas no momento em que uma coruja pelada sentou no muro perpendicular adjacente, me senti forte e apto para descrever aquelas cenas e acontecimentos que se sucederam aos olhos de nossos irmãozinhos maranhenses, e agora nos meus. O relato do Morto foi fundamental para compreender certas decisões e ações tomadas por Zebu, nas quais Bráulio parece ter vacilado, mas principalmente ele precisava dar um rumo na sua vida, vingar, dar certo em alguma coisa, sacudir a velha urucubaca que sempre o acompanha, inclusive pelas milhares de latrinas desse mundão.
        Engulo em seco uma rosquinha Centopéia e vou ordenando minhas ideias, de acordo com os fatos presenciados, o relato fidedigno do Morto e chego as primeiras conclusões sobre as teorias nas quais o iniciante Zebu baseou seu primeiro trabalho na televisão: 1) a galera aceita tudo o que aparece na telinha como real e verdadeiro, 2)uma celebridade se enjambra, não precisando esperar que ela surja, 3)a memória da galera é curta, ficando só o clima passado pela encenação, desaparecendo os graves defeitos de conteúdo, 4)os cantores e atores podem não ser bons mas precisam ser convincentes, com isso requerendo bons editores de cenas, 5) história no Brasil não existe, vale a versão mais oportuna e recente, principalmente se for explanada por uma celebridade. De posse dessas teorias, que julgo estarem corretas, Zebu partiu para encontrar seu braço direito, o qual ele elegeu Ivo São Loirão, pai de Denis “O Travesso” Loirão, um de seus melhores amigos, que há dois anos age no setor de agenciamento musical, tendo em vista a falência de múltiplos órgãos do seu conglomerado financeiro. Um dos órgãos era uma produtora de vídeos pornô, com alguns até famosos como Vai atolá Komeini?, Desalmada na cama dos Vereadores, Sexo em latrinas vitorianas, Memorandos Sexuais com Morteiros e Bazucas e Cinco Loiras e um Funeral em 15 vezes no cartão. Segundo Morto, São Loirão conhece a fundo o que a galera quer, trazendo confiança para Zebu. Como braço esquerdo ele recorreu a Dejetos de Vancuver Artístico, um massoterapeuta virtual com uma banda na praça, a Bastards Encounters, com seu álbum todo em inglês, Ginecological Songs. Este teve vendagem recorde somente nos cursinhos de inglês que inundam nosso país. Vancuver canta de forma clara e singular, permitindo aos que estudam inglês, acompanharem o canto e a pronúncia, oportunizando ainda um coro back vocal com a tradução simultânea. Sem falar na letra, que aborda com clareza e desinibição o tema, fornecendo dicas oportunas de quebra. Vancuver sabe armar o esquema, faz o auê, e também sabe o que a galera precisa e quer. Ele era sócio daquele famoso restaurante, Rango Loose, que tinha o xuxú e a abóbora como base para todos os pratos. Apenas o passado de Vancuver, conforme Morto revelou, foi um tanto nebuloso. Diz se à boca pequena que ele era o proprietário inicialmente da Assalto & Cia e depois da Planeta Assalto, fornecendo tudo para que esta atividade milenar se realize a contento, com escutas, pés de cabra, furadeiras especiais, visores noturnos, máscaras à prova de balas, mimo penetril e tudo o mais que poderíamos imaginar ou sonhar. Infelizmente apesar de tratar-se de uma atividade antiga e que emprega muitas pessoas com talentos especiais, é ilícita, e assim durou apenas oito anos, com Vancuver preferindo mudar de ramo ao invés de trocar novamente o nome do seu estabelecimento.
        Tendo determinado os braços direito e esquerdo, Zebu partiu para o cérebro que se encarregará de juntar as peças que jamais se encontraram, dando lhes vida, história e tantas emoções. O entrelaçamento das peças com historinhas marcantes, músicas no nível das que andam por aí, se bem feito, causarão os efeitos necessários para perpetuar ganhos e vantagens. O escolhido foi Almir Bom Pastel, com uma sensibilidade mágica para tirar leite desnatado e integral de pedra. Não sei bem se foi o que ocorreu, pois a exibição para todo o Brasil está sendo estudada com muito carinho e medo por todo o staff da rede.
        O que eu presenciei foi mais ou menos assim: abertura do programa com um representante de cada tribo indígena brasileira cantando com Índio Bráulio o Amazing Grace, hino americano, na seqüência o presidente da ordem dos odontólogos brasileiros entrega para Bráulio o certificado de “A celebridade com os dentes mais brancos do país”, rolando ao fundo “2001 uma odisséia no espaço” com o quinteto Cabeças Destroncadas. Após Bráulio anuncia o grupo “Gatinhas Grávidas”, que cantam pela primeira vez ao vivo seu futuro hit “A concepção da concepção”, com participação no arranjo e ao piano do maestro Travessa Mário Cinco Paus. Aqui ocorre a primeira grande emoção do programa, pois todas as doze gatinhas da banda estão grávidas, como requer a proposta da banda, tendo como progenitores, além do Travessa, os três roadies do grupo e o taxista Erméto. Em pleno estribilho da canção, a pandeirista Helena Cabisbaixa tem contrações violentas sinalizando o que deveria ser feito. Então Bráulio, que na semana anterior teve aulas de parto emergencial com o taxista Erméto se apresenta e o realiza na hora, sob a estupefação dos presentes e seguramente dos telespectadores, inclusive a minha, com algum atraso. Então do nada surge uma claque de supostamente familiares da Cabisbaixa, chorando e reverenciando Bráulio e o novo ser que havia chegado, com carruagens de fogo em ritmo funk rolando ao fundo, com o quinteto Cabeças Mofadas. Pausa para os comerciais e na volta Bráulio anuncia o primeiro grupo vocal de trapezistas da américa, o SUS-Pense com dois casais que trabalham naquele orgão fazendo evoluções nos trapézios, portando microfones de lapela e entoando duas versões do grupo Abba, em versões sertanejo universitário com pelo menos seis semestres concluídos. Na seqüência Bráulio canta a “Dança dos Passarinhos” com vinte e uma gostosas vestidas de passarinhos desnudos, com o patrocínio daquela empresa de telefonia. Logo após sobem ao palco a única atração do projeto antigo que foi mantido, um coral com 12 papagaios sob a regência do maestro Dino Mometro, lascando “Salve simpatia” de Jorge Bem Melhor e “Get thee behind me, Satan” de Irving Berlin, com o solista tenor conseguindo alçar vôo nesta última. Em seguida o clima torna a ficar tenso, quando um dos ex-professores de Bráulio, Ildo Geneviéve surge trazendo seus boletins do primeiro grau, xingando e botando o dedo em riste do coitado, além de cobrar algumas situações escabrosas passadas. Tudo muda quando sobe ao palco o latifundiário Estive “Perna de Anão”Acki e o grupo Sapos Arrogantes, agora com Elvis Vacylou na bateria, mudando o ambiente e trazendo novamente esperança ao contexto. E todos cantam e encantam, inclusive Geneviéve a marcante “Amigos para sempre”, num clima feudal eucarístico vaudeville chanfrado.
        A coisa toda está indo pro fim com o quinteto Cabeças Diagnosticadas, acompanhando Bráulio e as Gatinhas Grávidas, num antigo sucesso tipo povão “Eu não sou cachorro não”, quando adentra ao palco um dos índios que cantaram Amazing Grace, indignado e com uma bomba amarrada a sua barriga, exigindo um valor maior no seu bolsa família. Neste momento outra das Gatinhas Grávidas, Nicinha Pombarrola inicia uma gritaria, vítima também de contrações violentas. Bráulio surpreendentemente mantém a calma e continua dizendo na canção que ele não é cachorro não e o taxista Erméto entra em cena e inicia o segundo parto da noite. Zebu, segundo Morto, até aí degustando impassível um filé a parmegiana com fritas e repolho, corre em direção ao indígena tentando fumar o cachimbo da paz. Enquanto isso o público se divide em gritos de pavor e estupefação, quando todos escutam o choro de uma criança, empunhada pelo taxista Erméto, rivalizando com Bráulio no ápice da negação ao cachorro. Neste momento brilham os olhos do silvícola e ele aceita o cachimbo do Zebu, dando uma tragada cheia de paz e amor, dizendo que a bomba era um simples traque. Sob os aplausos frenéticos dos espectadores presentes no novo teatro George Bush Junior, na Lapa, Bráulio aproveita e puxa o seu futuro hit prometido por Zebu, “Malandro de rodapé”, cantando com as GG (Gatinhas Grávidas) e com os três quintetos “Cabeça”, já com os presentes acompanhando e demonstrando conhecimento da boa letra de Almir Bom Pastel. Por fim, um pouco antes de baixarem as cortinas, Bela Dormecida, outra GG inicia o processo das contrações já nos braços de Erméto.
        O que pensar disso tudo? Musicalmente o programa do cacique não perde pra ninguém das outras TV’s, sendo tão ruim quanto. No aspecto divertimento provavelmente ganha dos outros, só restando saber o que foi produção vindo do fundo da “alma” do Zebu, do que foi espontâneo. Com relação ao silvícola, que pleiteava aumento no bolsa família, virou ascençorista da rede de TV, todas GG ganharam planos médicos da Maramedinhão, Erméto, o taxista tornou-se pai pois os três partos resultaram em filhos seus. Zebu foi acoplado ao núcleo de novelas por sua criatividade, e caso o programa que fez for transmitido para o país, iniciará a produção do de 2010. Vou ficar atento, pois estou curioso pelo desfecho deste caso, onde o staff da rede precisa considerar a sequência de programas com essa adrenalina, criatividade e perigo, tendo que efetivar Zebu, Bom Pastel, São Loirão, Vancuver e os Cabeças. Usei a palavra latrina duas vezes neste texto, pois acho engraçada sua sonoridade. Gostaria que ela substituísse as outras mais comuns e sem o charme que ela possui como banheiro, WC, mictório, etc. Por isso me sinto inclinado a arriscar uma futura banda para Bráulio,...Latrinas Fétidas.(Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros –13/03/ 2010).


Índio Bráulio: mito ou fraude

         Persona estranha e carismática, cruel em certos aspectos, complacente em outros, e muitas histórias fantásticas fizeram de Índio Bráulio uma celebridade do underground, se assim pode se dizer.Pesquisando na internet e conversando com pessoas mais bacanas que legais, consegui recompor em parte a obra e a vida de Índio Bráulio, para muitos um herói e para outros tantos um espertalhão.
         Iniciou a vida profissional em sua terra natal, colocando ferraduras em cavalos com 17 anos, aos 19 juntamente com seu pai Bodorox Bráulio e Sérgio Becker, o criador do sistema, desenvolveu o fabricóscopo, horóscopo que associa a data de fabricação dos produtos à uma contribuição mais favorável à vida das pessoas. Assim os habitantes de Mato Sem Cachorro, antes de irem ao supermercado, consultavam aos Bráulios sobre as datas mais favoráveis de fabricação para aquele dia. Isso fez com que eles trabalhassem incansavelmente, inclusive nos fins de semana, pois a dependência de boa parte da população era grande, inclusive prefeito / delegado/ estudantes/ prostitutas/ donas de casa, praticamente toda a sociedade cachorrense se envolveu nisso. Em pouco tempo alguns produtos passaram a encalhar, as pessoas alteravam seus gostos e necessidades em função das datas e isso passou a incomodar os supermercados.
         Depois de alguns sinais, ameaças radicais começaram a surgir e os Bráulios tiveram que rever suas vidas e a mudá-la radicalmente, criando uma estória mirabolante para abandonar o fabricóscopo.
         Aos 20 anos surgiu a primeira oportunidade musical com a prefeitura de Mato Sem Cachorro, quando o filho do prefeito, Isaías Saía bolou uma nova forma musical com os implementos e ferramentas de trabalho da prefeitura. Saía e Bráulio organizaram uma orquestra com instrumentos incomuns, picaretas, britadeiras, furadeiras, pás, ancinhos, serras e até tratores e caminhões com caçambas, passando a animar eventos promovidos pelo prefeito, Cervantes Saía. O próprio Índio era responsável por uma das caçambas, a qual ele baixava e levantava freneticamente. O som em geral, dizem alguns que ouviram, era até legal e inovador, alternativo, barulhento e complicado, principalmente as britadeiras e os vocais das Irmãs Tuksom, que se valiam de gargarejos, espirros, ranger de dentes, gargalhadas, em músicas do cancioneiro tradicional brasileiro como Fio de cabelo, Maracangália, Aquarela do Brasil e Pastorinhas. Os arranjos já eram de Índio, que na época, mostrava uma criatividade ímpar, segundo os mesmos que ouviram. A orquestra terminou quando a oposição política trouxe para discussão o mau aproveitamento do equipamento da prefeitura, além de fazerem apenas barulho. Claro, opinião dos malditos retrógrados.
         Aos 22 anos Bráulio se voltou para as produções, recrutando um velho conhecido seu, Brudo Salmora. O local escolhido foi o Conservatório Cachorrense de Artes Genéricas, onde eles criaram o “Rock Horror Show sem Cachorro”, no qual três Bandas de ponta da cidade tocavam enquanto Bráulio e Brudo soltavam no ambiente escuro formigas saúva, cobras, sapos, morcegos, além de piso e cadeiras soltas, esguichos de água intermitentes, banhos de farinha com pó de mico, sirenes e borrifos de odores exclusivos.
        Após 10 edições, o conservatório estava em péssimo estado de conservação e começavam a surgir reclamações indenizatórias por danos físicos, pois a galera adorava a festa, mas os acidentes iam se sucedendo.
         Por sorte tudo estava no nome de Brudo Salmora, que fugiu para a Indonésia levando junto todas as broncas, liberando Bráulio para o seu futuro promissor.
         Com 23 anos, certa experiência e por ter vivenciado algumas furadas, Índio tornou-se um ser irascível para com a sociedade cachorrense. Como tinha facilidade para escrever poesias, surgiu “Insultos ao cair da tarde”, um encontro de quarta a sábado no bar de Lilico Chilique, às 5 da tarde, onde a família de Bráulio se encarregava de vender guloseimas com chá ou cerveja e Índio declamava suas poesias. Estas sempre ofensivas à sociedade, gerando polêmicas, insatisfações e pancadarias ocasionais, pois ele não tinha papas na língua, soltava o verbo do tipo doa em quem doer. Essa experiência durou 6 meses e foi interrompida pelo juiz Gaivota Capelão, que deferiu uma liminar solicitada pelo padre Jacobão Cintilante, com o argumento de que “a sociedade cachorrense já doente, agora estava apodrecendo e devemos dar um basta em Bráulio”.
         Com isso Bráulio buscou consolo com Adrianeide Sterco, ex-vocal do Matuscos do Além, uma pessoa irrequieta e tinhosa que acabou ganhando o coração do velho Índio com seu talharim ao molho de chaves. Após um mês de retiro no spa Mentes Côncavas & Corpos Convexos , Bráulio e Sterco estavam prontos para novos desafios. Estes surgiram na figura do punk Luka Fumegante, e sua banda “Destroços de Mato sem Cachorro”, onde Bráulio faria a guitarra base e vocais, enquanto Sterco, vocais e harpa paraguaia com distorção e pedaleiras.. Assim surgiu o álbum “Josie e os ogros encantados”, somente com canções de roda em versão hard core, Ciranda cirandinha no teu, O gato de tênis e a alface doidona, Vou fazer ilari ilariê com você, Ursinho Pimpão vai à Amsterdã , Alfredo e o elefante com cirrose, Vovó Mafalda voltou de Marrakesh e mais sete outras faixas. A repercussão foi grande na high society local, pois os filhos destes adoraram a insolência do grupo, principalmente Índio Bráulio, como sempre vociferando e quase engolindo seus supostos inimigos na platéia dos shows. Mais uma vez o juiz Gaivota Capelão interferiu pois ele já estava prevendo o desfecho da situação. Gaivota contratou informalmente a empresa de Alcântara Sumiu, a Sumiu pra Tonga da Mironga do Kabuletê Ltda., e dentre seus serviços, um é realocar pessoas mesmo contra sua vontade. O serviço foi bem feito, pois, segundo Bodorox, pai de Índio, depois de uma semana convivendo com a turma da Sumiu, ele por vontade própria foi remetido para Ventos Sopram e assim pode manter seu nome original e não precisou mudar sua aparência, prometendo nunca mais voltar a Mato Sem Cachorro.
         Assim termina a primeira parte da história de Índio Bráulio. Vamos tentar obter as outras, continuando a conversar com pessoas bacanas e se possível com as legais também, por que a melhor fase dele obviamente acontece em Ventos Sopram, o caldeirão cultural deste país. (Luiz Carlos Peretto-Jam-5/10/2007)

Índio Bráulio: mito ou fraude, part two

         Continuando a pesquisar sobre figuras mitológicas da nossa música, obtive mais algumas informações valiosas sobre Índio Bráulio, relatadas por Epistofócles Caramba, atual namorado de Adrianeide Sterco, ex Bráulio em tempos idos. Na part one, a empresa especializada Sumiu pra Tonga da Mironga do Kabuletê Ltda, livrou o povo de Mato Sem Cachorro do endiabrado Bráulio, que estava corroendo as entranhas da sua sociedade. O pessoal da Sumiu, muito diligente, deixou Índio em Ventos Sopram, para que nunca mais retornasse, porém com uma boa moradia e um emprego na prefeitura local. Seu “conselheiro”, Irineu Spatifer, um borrabotas safado, preposto da Sumiu, grande conhecedor de artifícios e jeitinhos para o bom andamento dos trabalhos em geral, e diretor musical do grupo Muquiranas à Flor da Pele. Nesta banda, por ironia do destino, estava um dos futuros parceiros de Bráulio nas composições, Kevin Nagarup, americano radicado em Sopram há 10 anos. O fato de Índio ter sido deixado aos cuidados de Spatifer e os Muquiranas, tem a ver com um pedido de seu pai, Bodorox, que notava qualidades musicais em seu filho, porém seu desregramento o levava a falhar sempre nas suas iniciativas. Ele imaginava que ao lado de pessoas experientes da musica, ele pudesse evoluir.
         A primeira chance de Bráulio em sua nova terra, segundo Epistofócles, surgiu quando Kevin constatou que grandes músicos do country americano passaram algum tempo em penitenciárias, por delitos dos mais variados, como Merle Haggard, Johnny Cash, David Allan Coe, Johnny Paycheck, entre outros. Ele imaginou que se isso funcionou nos anos 60, mais ainda nos 2000, quando a galera está mais interessada em abobrinhas do que na couve. Então, Bráulio e ele passaram a selecionar músicos a partir de presos que estivessem no final da pena, e esta no mínimo de 5 anos, pois não queriam banalidades. Formaram o grupo Apelos Pubianos com supervisão de Spatifer, para produzir um som que agradasse a todos os bolsos, saindo um emo teenager, com pop adulto e um easy listening ancião, composições de Índio e Kevin, para este novo embate com o mercado. Da seleção dos presidiários surgiram 4 elementos, com muita fama em todos os sentidos e algumas qualidades musicais. O plano era divulgar aos quatro ventos a ficha criminal dos indivíduos, sensibilizando o grande público para algo diferente que estava ocorrendo no nosso país. Além disso, Spatifer introduziu uma atração extra, que vinha na pessoa de Alucineide Metadona, integrante do plantel de prostitutas de Spatifer, que dizem algumas línguas afiadas, comandava 51,5 % do setor em Ventos. Essa menina era super dotada, possuía seios acrobatas, que com movimentos rápidos e leves acendiam cigarros, lixavam unhas, folheavam revistas, carimbavam papéis e passavam mostarda em cachorros quentes. Bráulio e Kevin eram contra este extra, pois desviaria do foco principal, a música e os inéditos ex-apenados. A faixa de trabalho começou a tocar de hora em hora nas FM’s locais e aparições diárias na TV local, por conta da ficha que Spatifer tinha dos gerentes delas, não se tratando de extorsão, mas apenas uma contorção. Após 2 meses de confronto, a população já estava receosa, pois a reiterada divulgação das fichas criminais, a música de trabalho mal interpretada, pois a letra rezava, “somos os ventos que sopram sobre a injustiça/ estamos aqui para eliminar toda essa catiça”, com Bráulio raivoso nos vocais. Além disso, Alucineide com seus seios envenenados e desnudos, praticando aquelas atrocidades. Eles surgiam na TV após a galera presenciar nos noticiários um balanço geral da podridão do mundo, e da novela da hora, seja qual for o tema, induzir valores distorcidos e controversos. A rejeição veio forte, o noticiário e a novela são parte da vida e expressam a realidade dela, como diriam os próprios fabricantes do produto, mas aquilo que os Pubianos estavam a realizar era um escárnio, a baixaria institucionalizada e a falta de vergonha da própria vergonha. Que saudade do pessoal do funk ou do axé. Então os ex-apenados, que estavam mais sujos que nunca na praça, assaltaram um carro forte e fugiram para Serra Pelada, Spatifer saiu pela tangente arrastando Bráulio,enquanto Metadona foi contratada pelo Circo Voador de Soleil, versão paraguaia. Sobrou para Kevin Nagarup, mediante uma boa bola assumir toda a meleca, sendo enxovalhado pela população, voltando a dar aulas de violão e boas maneiras com a guitarra, no Conservatório de Música Spatifer.
         Segundo e terceiro Epistofócles, em meio a 2006, Bráulio foi convidado juntamente com o grupo Cuecas Patrióticas, a participar da principal data festiva do município de Engodos Verdejantes, denominada de “Dia da Propina”. Todos os cidadãos, independente de cargo, função, autarquia ou empresa, deve aceitar propina e realizar os desejos dos demais. Na festa constam desfiles na avenida de estudantes, locadores de vídeos pornôs, colecionadores de anedotas, este último com muito vigor na região, especuladores da bolsa, a banda podre dos escoteiros e o contingente total de bois e vacas, que é a maior riqueza da região. A galera em geral aproveita para tirar multas, passar projetos, conseguir alvarás, reduzir penas, adquirir bens com preços mais acessíveis, etc. O idealizador disso, Hanniball Pentêlhor, também conhecido como “o Facilitador de Almeida”, tem um prédio de cinco andares em Engodos, realizando as mais intrincadas manobras comerciais, nos mais variados setores da vida do município, “facilitando” tudo conforme a verba do necessitado. Neste dia específico, Pentêlhor descança, é o seu feriado particular, apenas percebendo uma pequena comissão em cada transação. O show estava marcado para a noite, com os Cuecas abrindo para a grande estrela da noite, Índio Bráulio e os Supositórios Virtuais, sua banda de apoio naquela altura. Passaram o som e foram azarar as meninas no centro de Engodos, quando o líder do Cuecas, Arlindo Zorba, soube do que consistia aquele dia, avisando de pronto ao Índio. Os dois tinham o mesmo problema, carteira de motorista retida em Ventos Sopram por excesso de pontuação. Foram ao local indicado, intercedendo em seu favor para a liberação das ditas, quando o delegado local deu voz de prisão para Bráulio e Zorba. Ele caracterizou a acusação como tentativa de suborno. A coisa toda dependia de um cartão magnético emitido e assinado por Pentêlhor, chamada de “Prop-borno-suina-liberios”, que além de valer com eficácia para o dia, concede 30% de desconto para qualquer operação com o facilitador durante o ano. Os dois foram encarcerados e necessitavam de alguém que tivesse o raio do cartão para liberar-los. Faltando 15 minutos para o início do show, os Cuecas e os Supositórios com as calças na mão, são avisados do problema. Então conseguem o auxílio de Herbert Bohnsacco, natural de Engodo, portador do cartão, mensalidade em dia, vacinado e que ali estava visitando seus familiares. Ele os liberou com o Prop-borno e uma propina cash, a ser descontada do cachê deles. Voaram para o show, que foi um dos pontos altos da carreira de Bráulio, ovacionado, um grande músico e um singer songwriter de exceção, conforme Juca Tresdedos do jornal Notícias Baratas de Engodos. Ele era só felicidade, pelo fato de ter escapado da prisão, principalmente depois de tudo que havia passado na vida. Tudo isso, mais a reação da galera o deixou chapado, porém o dia seguinte estava chegando com a mesmice, pouca grana, mendigando shows e o mundo todo contra ele.
         Em março de 2007, Índio Bráulio e a modelo Paulinha Meejastes foram convidados por uma rede de TV paraguaia, para produzir um Great Brother naquele país, naturalmente introduzindo elementos novos para apimentar e dinamizar as ações, descaracterizando a cópia do Big. A dupla ficou realmente empolgada, tiveram a nítida sensação que sua hora havia chegado, bolando a “coisa” toda da seguinte forma: vinte celebridades daquele país, as quais não devem ser muito diferentes das nossas, á nível de “atores”, “modelos” e outros cuspidores que transitam em torno e dentro da mídia mais escrota e vulgar deles, semelhante à nossa. Tudo ocorreria em 400 m2 cedidos por uma cervejaria, patrocinadora do evento, num prazo de 2 meses. Cada celebridade teria a companhia de animais de estimação em seus quartos, alimentando e zelando por eles, ou seja, uma galinha de Angola, um ganso de Taubaté e um papagaio com QI compatível com as celebridades, para diálogos livres. Além disso, dois bodes fedorentos na sala e um peru como “hostess” e apresentador, juntamente com Jesse “Novilho” Acedo, galã novelístico paraguaio. Também a presença fixa na casa de um punguista ou lalau, um vendedor de livros, representantes dos cartões de crédito e celulares e um divulgador de rua, com megafone, de produtos farmacêuticos com desconto. Todos tentando realizar suas tarefas, 24 horas por dia. Luz e água sendo cortados de forma alternada a cada seis horas, alimentação se resumindo em aipim, pipoca, salsicha bock, pão e as balas de goma Tôafim. Os concorrentes não podem dispor dos animais de estimação á nível de alimentação, bem como as rações, caso contrário á desclassificação sumária dos envolvidos. Um júri para a dispensa semanal de um concorrente, composto por celebridades, políticos, costureiros e padeiros, com peso 2, mais as tele-ligações da população com peso 1,95, cujo lucro para os realizadores é incomensurável. A cada desclassificação, o próprio designa o herdeiro dos seus animais, os quais devem chegar intactos e gordinhos ao final, sob pena do participante ser excluído. Outra novidade significativa, como celebridades adoram festas para se pavonearem, Bráulio levou do Brasil duas bandas para animar todas as madrugadas dos Brothers, de segunda a domingo, da 1 hora às 6 da manha., alternando-se nos dias, pois 5 horas a fio para gansos, papagaios e principalmente celebridades, não é mole. Os participantes ficam obrigados a manter um mínimo de 18 elementos dançando sempre, pois a transmissão do cabo é ininterrupta, podendo incluir gansos, galinhas e papagaios, se assim desejarem. Os bodes devem apenas ficar fedendo na sala e o peru é o simpático recepcionista do ambiente, cumprindo às 8 horas normais de trabalho. Assim os grupos Baganas Conversíveis de Wolf Martello e o Senhorita Bety e os Masturbeiders de Bety Pum, foram os escolhidos para essas noites glamurosas do Great Brother Paraguai. As Baganas fazem um som barulhento e distorcido, pra afungentar o sono de qualquer um e os Masturbeiders tentam colocar mais alegria nos corações com o seu sertanejo universitário, com pós graduação, reforço nas férias e pitadas de axé metafórico urbano. Aliás Betty “Pum” Parafuso, filha dos Parafusos de Engenho de Dentro e de Fora, família abastada e com cortes de cabelo tipo “milico”, médica formada, criou o consultório Cia do Pum, atendendo dezenas de pessoas dia, e resolvendo. Com o tempo ela percebeu que a música estava em seu exame de sangue, juntando-se inicialmente ao Gases Nervosos, grupo de seus enfermeiros. Então vendeu o consultório, conservando apenas o gracioso apelido. Quanto aos prêmios, o Great Brother Winner levará, além do peru “hostess”, um emprego a escolher com um dos políticos, uma casa de bambu alugada com o IPTU pago por dois anos e meio, um depósito de 20 mil Guaranis num paraíso fiscal, o direito de participar como ponta em duas novelas brasileiras e um note book usado por Rihanna ou Ricky Martin, á escolher. (Luiz Carlos Peretto-Jam-25/1/2008)

Índio Bráulio: mito ou fraude, part three

         Mais alguns fatos sobre Índio Bráulio vieram à tona, quando troquei alguns e-mails com o maestro Francisco Mentolado, que descobri ser o responsável pela formação musical dele. Toda base com violão e guitarra e noções de arranjos vieram de Mentolado. Com esse contato consegui recompor mais alguns momentos da vida atribulada e fascinante desse, talvez gênio da nossa música, tendo em vista o que temos de 15 anos para cá. Seguem mais algumas passagens do Bráulio, segundo dados de Chico Mentolado:
         Em 2008, segundo Mentol, ocorreram fatos inexplicáveis em Ventos Sopram, com Bráulio apenas figurando. Tudo começou em janeiro deste mesmo ano, quando um bando de donas de casa criou o Grupo Portabilidade de Celulares de Sopram (GRUPOCELSO), que passava a reivindicar a portabilidade dos celulares de maneira ostensiva e aberta, com passeatas, carreatas e participação em programas televisivos. Neste grupo fazia parte Maria das Dores Sofre, casada com um auto denominado druida, conhecido por Biro Lero, que não trabalhava, apenas ficava em casa meditando e captando bons fluidos para sua família. Quando ele soube das pretensões do grupo de sua esposa, a Dores, intuiu que essa portabilidade poderia ocorrer com as almas, que ele tanto conhecia e estava familiarizado, no seu quotidiano. Então num belo dia cinzento, decidiu ajudar seus semelhantes, montando o inédito P.A.D. (portabilidade das almas dirigido), onde faria a transição delas para outros corpos, conforme escolha dos clientes, temporária ou permanente, ganhando assim algum também para aliviar a Dores. Ele estabeleceu para cada serviço portábil o preço de R$20.000,00, que incluía um litro da cachaça Elesbão, que seria ingerida pelo paciente 15 minutos antes do evento portábil, 200 miligramas de sabonete líquido lavanda, ministrado via oral por Biro durante a portabilidade, dois chicotes de couro cru para tornar o elemento mais suscetível, dois alicates para arrancar algumas unhas do paciente, caso precise dar mais ênfase à portabilidade e um concerto punk de Índio Bráulio e os Supositórios Virtuais durante a cerimônia, com 3500 Watts RMS. Obtivemos pela internet, alguns depoimentos de portabilistas, relatando essa experiência tendo Biro Lero no comando. Foram unânimes em declarar que suas vidas mudaram, não eram mais as mesmas pessoas. Após a cerimônia, eles acordavam com dores no corpo todo, inclusive na cabeça, unhas arrancadas e milhares de visões em seu cérebro, como manadas de cervos com a camiseta do Flamengo, pessoas nuas correndo atrás de estopas coloridas, cachorros e gatos recitando Pablo Neruda, sapos e papagaios com atitudes machistas e desinibidas, sem falar na banda de Bráulio, vomitando discursos ácidos, azedos e salgados sobre silicone nos seios, chá de camomila em festinhas noturnas, segredos inenarráveis de agiotas, aumento do pênis e por ai vai. Grande parte das notícias transmitidas sobre portabilidade, provem dos depoimentos emocionados de Romeu Escarlate e Lewis Frango, dizendo que nunca mais foram os mesmos. Romeu acredita que a sua alma se partiu em duas, uma permanecendo com ele e a outra indo para o Ronaldinho, pois todas as noites ele chuta de cinco a seis vezes sua esposa na cama, enquanto dorme. Para Lewis sua alma trocou de lugar com a de um lanterninha de cinema em Dakar, agora enquanto dorme visualiza vários filmes com legendas em árabe. Gostaria muito de encontrar um professor que ensinasse essa língua. Bráulio saiu fora dessa, quando Gertrudes Emanuele, escrivã de polícia e fã dele, avisou que naquela 25ª.cerimônia, o portabilizado seria um agente da polícia infiltrado, que deixaria seu celular ligado, proporcionando um ataque da swat local. Bráulio foi indiciado, porém sofreu apenas alguns cascudos, para aprender que Índio só quer apito. Neste meio tempo ele participou de uma produção cinematográfica nacional, baseada no livro de Apolônio Polonia, “Celebridades: um inço no futuro?”, que foi adaptado para o cinema pelo diretor Geraldo Consta, com o título de ‘Planeta Celebridade pede socorro”. O tema aborda o grande volume de celebridades em 2049, a partir de pesquisas feitas pela empresa inglesa Xywyonykon Enterprises, que há seis décadas realiza o senso desta figura no mundo. Os dados obtidos por Apolônio são alarmantes e estão assim dispostos na tabela, por década e percentual delas em relação à população mundial: 1959 = 0,00001%/ 1969= 0,0001%/ 1979 = 0,001%/ 1989=0,1 /1999=1,00% e a atual 2009=2,00%. A partir daí, a Xywyonykon projetou para 2049 o absurdo número de 80%, baseando-se em que os “meios” para forjarem os célebres, estariam cada vez mais acessíveis. Apolônio então deduziu que numa família de 5 pessoas, 4 seriam célebres naquela data futura, concluindo que os 20% restantes se revoltariam contra a esmagadora maioria de opressores, que os discriminariam e os fariam escravos. Este empreendimento teve a supervisão de uma empresa de marketing avançado, a Industudo, um braço da Crediferrão, perita em transformar asnos de carteirinha em celebridades, algumas andam por ai desfilando seus atributos. Assim surgiu este argumento, tendo como rebelde maior dos “comuns” a figura de Osana Chavão, interpretada por Índio e tendo em Paulinha Meejastes a heroína, cujo dedo mindinho direito é o mais sensual do planeta. Para quem teve oportunidade de ver esta película, seu mindinho aparece oito vezes em close, para o delírio da moçada. Como ela tem 1,90 metros de altura e Bráulio 1,65m, consta que o diretor Consta utilizou várias vezes o banquinho Romeu, para as várias cenas românticas. A trilha sonora coube ao grupo Gatunos Íntegros, no qual Índio também participa nos arranjos, bibloquet espanhol e ioio apache. Quem se deu bem aqui foi o vocalista dos Gatunos, Frederyk Gozado, que foi catapultado por um ex nazista, hoje professor de danças aeolicas sub conjunturais, Werner Despachon para uma tradicional novela teen, já um tanto madura na TV. Este trabalho rendeu pouco para Bráulio, pois o filme mesmo sendo na linha de um exterminador do futuro, não teve investimento necessário em mídia, tornando-se apenas um cult no seu estado.
         Voltando ao passado de Bráulio, de acordo com Mentolado, em 2002 ele conheceu as irmãs Jasmim e Anabela E. Mulsão Scott, gêmeas com os apelidos respectivos de Minie Quebra Ossos e Bela Coice de Mula. As duas não resistiram aos encantos do Índio, tanto fisicamente quanto intelectualmente e musicalmente. Elas se auto denominaram empresárias, seguranças e amadas amantes dele, chamando-o de “nosso chaveirinho”. Nesta época Bráulio andava envolvido com duas bandas, a Marmotas Hipócritas que detonavam um emo rubicão, cravejado com pop destilado tipo família e com os Narizes Assoados, onde pintava um rock troglodita assoado com sertanejo universitário aos prantos. As duas gêmeas passaram a comandar a vida de Bráulio, que no início gostava da atenção e do amor com que era manipulado. Elas criaram uma central de intrigas e dizimaram as Marmotas e os Narizes, principalmente para extirpar Viviane Esbrega, o affair da hora do chaveirinho, que deixava Quebra e Coice enfurecidas. A dupla venenosa desbaratou as duas bandas e criou uma terceira, Gansos Lúgubres, junto com seus quatro irmãos, Cervo, Alce, Capivara e Minotauro E. Mulsão Scott, para manter Bráulio em família. Por incrível que possa parecer os shows em cidades vizinhas foram se sucedendo, em profusão. Sempre nos hotéis das cidades, Bráulio ficava em quarto separado do grupo, com assistência de uma das irmãs, sendo que o resto dos Scott em dois outros. O cachê de Bráulio vinha sempre, tendo público ou não, com o controle financeiro de Bela e Minie. Normalmente realizavam um espetáculo em cada cidade, porém a banda permanecia em média três dias em cada uma. Com o tempo, surgiram pessoas estranhas a cercar o grupo, questionando e os observando. Em 25 de maio daquele ano, durante um espetáculo em Aspargos Ville, eles receberam voz de prisão em pleno palco, com a voz alegando 25 assaltos realizados no estado. Foram conduzidos à delegacia da cidade e autuados na hora. Bráulio sentiu-se ofendido com aquele tratamento, poderia ser um engano, ou um sonho ruim, porém tudo parecia mais real que a realidade. Ele chamou seu personal friend e advogado, Crespo Bonachão, que arrastou o coronel Ernesto Boas Vilas, peso pesado,conhecedor de ambientes hostis e perito em situações cabeludas. Logo detectaram que Bráulio era um mero joguete nas mãos da família Mulsão, sendo que Bela Coice de Mula, que realmente gostava dele, revelou a inocência de Índio, apesar dos quatro irmãos e Minie já estarem fartas dele. O delegado apurou em suas diligências que, em várias cidades a família E. Mulsão Scott pagava para que agendassem o show e ainda arcavam com as despesas acessórias do evento. Além disso, os irmãos Capivara e Minotauro, antes dos eventos, realizavam um minucioso levantamento dos locais a serem visitados. Este contexto gerou em Índio uma auto comiseração, pois pessoas inescrupulosas usaram de sua boa fé e seus dotes artísticos, para fins escusos que além de iludi-lo, prejudicaram terceiros inocentes. Após estes fatos, Bráulio ficou, segundo Mentolado, 25 dias trancafiado em sua casa, de baixo de uma escrivaninha, apenas lendo P. Coelho e atendendo a tele entrega do Pizza Sexy à Dois para um.
         Chico Mentolado revelou que tem muito orgulho do seu pupilo, torce por ele e acha que futuramente, com mais experiência, poderá vingar, pelo menos no programa do Raul Gil. (Luiz Carlos Peretto-Jam-28/03/2008)

Índio Bráulio part four – Não parece, mas a vida é dura

         Aqui temos os relatos de pessoas que estiveram ou estão próximas a Bráulio, para três situações que ocorreram em etapas distintas de sua vida, ás quais consideramos importantes para a compreensão de sua trajetória musical e do estado atual da música tupiniquim.
         Na primeira, Francisco Mentolado conta que “Bráulio deu um pitaco no mundo fashion com Os Tarados da Pensilvania, de Hieráclito Badanha, irmão de Nelson, da célebre grife Badanha’s Femme e a infantil Badanha’s Kids. Em 2004, como todos lembram, patrocinavam programas de ponta na televisão, astros de novelas e modelos, entre as quais Paulinha Meejastes, com seu dedo mindinho direito mais sensual do planeta. Destaque para a New Badanha’s Collection Spring Summer 2004, desenhada por Encostela, a mãe do Badanha, com renome em alguns países como Guatemala, Barbados e especialmente no principado de Mônaco. Neste país houve uma troca de favores com o filho de importante político local, que introduziu a grife na marra, fato este denominado de “a barganha do Badanha”, que gerou um estrilo do príncipe Rainier. Encostela era do tipo socialite, cheia de balaca, com um modelito fashion para subir uma escada e outro para descê-la, por isso não gostava muito do envolvimento com bandas de rock, bagaceiras. Em meados de 2006, Nelson bateu o martelo e iniciou a parceria com os Tarados, para ressuscitar sua marca. Pelo menos tirar mais um suquinho, encostando nela uma banda “ jovem, moderna e atual”, pronta para capturar coraçõezinhos e mentes desligadas culturalmente, aceitando gurus e celebridades incipientes, com seus caminhos fashion”.
         “Para esta empreitada Nelson e os Tarados convidaram Bráulio, que naquele período estava no nordeste brasileiro, produzindo a 1ª. Feira de Bordados Eróticos, capitaneada pelo empresário argentino Exposito Pellanka, que ali estava buscando algum. Bráulio foi o centro do grupo, compondo e arranjando sempre em cima de temas tipo: fashion is nice baby, roupa nova é cult, a moda é pra galera “in”, me mato se não estiver fashion, galera “in” é bacana, e vai por ai. Bráulio vestiu a camisa, foi com tudo, não tirando nada, menos pelos fashion e mais pela grana, que para ele era a única coisa “in”. O som dos Tarados era um pop rock fashion gutural orgásmico, com Índio verborrageando de forma incisiva à favor do glamour, do fashion espoleta, na compra e recompra, no “este que está no pacote já está out, vou voltar e comprar algo duas vezes in”. Além disso, Badanha simulou um clima de desentendimentos entre os integrantes do grupo, tipo lavando a roupa suja fora de casa, para todo mundo ficar sabendo, por acaso. Porém quando eles estavam conseguindo o reconhecimento musical da galera “in”, os Badanhas fizeram o out da verba. O erro foi não ter estimado o custo total em mídia, para também os Tarados terem retorno, porque essas figuras que alugam suas TV’s e rádios, só querem lavar a égua em cima dos incautos. Os Badanhas não estavam prontos para uma investida musical deste porte, salvaram sua grife por mais um tempo, vendendo mais alguns milhares de panos para os guarda roupas empoeirados mais chiques do país. Isso deixou os Tarados literalmente pendurados no pincel, imaginando como seriam mais dois milhões investidos neles mesmos. Bráulio cogitou de vender seu Opala 82 e abrir um restaurante de comida caseira paraibana/neo-zelandesa, porém foi demovido por não ser o suficiente para excitar os Tarados.” Conclui Mentolado.
         Essa me foi passada por Alucineide Metadona. Uma participação estranha de Bráulio, numa banda chamada As Três Fadas Gostosas e o Muquirana, onde ele era este. Conta Metadona que “a intenção do produtor Tierry La Fomme era homenagear as pornochanchadas do cinema nacional, que nos anos 70 fizeram a alegria do pessoal e do próprio. Por sinal La Fomme tinha ligações com negócios escusos, que lhe possibilitava ter uma renda mensal condizente com suas extravagâncias. Nessas atividades ele tinha o auxílio de um criado mudo, Atílio Rosca, filho de Fobia Rosca, coronel do exército, que o criou não permitindo que se expressasse verbalmente, reprimindo até os grunhidos. Ele cresceu de boca fechada, armazenando toneladas de raiva para com seu progenitor, o qual executou quando fez 16 anos. A partir daí iniciou uma vida voltada para a eliminação sumária de seres em geral, sob encomenda, nunca mencionando uma palavra sequer, caracterizando-se por ser um assassino gentil e cordato, procurando proporcionar um mínimo de dor. Contam que apenas conversava com seu padre confessor e com o açougueiro da cidade, Astromário Carburador, que o viu crescer e lhe fornecia o seu maior prazer gastronômico. Segundo o Astro, Rosca se expressava num legítimo espanglês, pois evitava o idioma de seu finado pai, por rancor. Voltando para as pornochanchadas, foi feito um trabalho exaustivo de pesquisas e entrevistas com os antigos atores, para saber de suas emoções e anseios como participantes daquelas gravações, compatibilizando as letras para o mesmo tema. A princípio Índio não gostou da ideia, por considerar aquelas produções um tanto bregas, que não mereciam tal consideração. Mas quando a barriga ronca, não existe vacilo com qualquer oportunidade. O que pesou para que Bráulio vestisse a camiseta dessa banda, foi o patrocíneo do papel higiênico Três Fadas, do Conglomerado Oito Fadas & Co., que estava lançando uma nova linha de produtos, distintos para as quatro estações do ano, em 25 cores e de acordo com o clima de cada estado. Além disso seu presidente, Candido Bravo, estava organizando a First Sudamerican Expo Higienic Paper, a ser realizada em Três Passo s Para Frente e Dois Para Trás (se precisarmos citar novamente a cidade, vamos resumir em Um Passo), a sudoeste de Chaparral. O único inconveniente seria que, além de As Três Fadas Gostosas e o Muquirana realizarem os shows nos sete dias do evento, seriam os pilotos para o test drive dos higiênicos, no stand da empresa, para clientes especiais. Mas a grana compensava, além do que as três fadas eram gostosas mesmo e todas tinham uma quedinha por Bráulio. Foi um período alegre para ele, relata Neide, diversão, algum no bolso, ídolo das modelos de feiras, suas frieiras o abandonaram naquele período e não apanhou de ninguém. Ele compôs uma faixa especial para o evento, num indie reggae praguejado, obtuso e fissurado, intitulada “Fadas e Muquiranas também adoram seus traseiros”, partes 1, 2, 3 e dub,.sendo a mais tocada na FM Paguetoke, elevando Índio ao patamar de cacique virtual, por alguns meses.
        Esta vem de Bodorox Bráulio, pai de Índio, remontando o ano de l999, trazendo figuras novas para a cena como a de Anápio Gonzalez Risco, que montou um negócio fértil em Campos Quase Verdes, cidade vizinha à Mato sem Cachorro. Anápio, segundo Bodô, “ficava indignado quando presenciava uma senhora, ou mocinha ou até mesmo um cavalheiro bem vestido, elegante, impostos em dia, e um cachorro covarde atrás de um muro ou cerca latindo feito um desvairado, maculando e deixando sem graça a pobre criatura humana. A partir daí ele cria uma empresa especializada em colocar naquelas feras um mínimo de bom senso, para saber diferenciar boas almas dos maus elementos, indivíduos que só emporcalham a sociedade com atitudes e visuais desprezíveis, que não merecem condescendência. Anápio registrou a empresa como Cães Cavalheiros & Amigos Ltda, colocando uma filial em Mato. Eu fiquei sensibilizado com a proposta daquela empresa, pois tinha dois dos melhores amigos do homem, da raça pastor alemão, presenciando diariamente aqueles acintes aos cidadãos de bem, que por minha calçada passavam. Em 1999 o filho de Anápio, Alíbio estava com sua banda Gansos Covardes iniciando no meio, sendo financiada pelo pai, cujo negócio ia de vento em popa, sempre faturando e catequizando cachorros. Bráulio, meu filho, naquele ano já estava dando os primeiros pulinhos no mundo musical, acompanhava as primeiras investidas dos Gansos, com o capital da empresa do pai. Então contratei os serviços de Anápio, que envolvia três sessões semanais com os pastores, uma com o psicólogo de cães Emérito Dálmata, outra com o adestrador, Gilseu Meteu e a de boas maneiras com Gilsete Meteu, irmã de Gilseu e esposa de Anápio. Todas sessões sem a nossa presença, para não constranger o cão. O trabalho se desenvolveu por seis meses a fio, com uma mensalidade de R$ 2.000,00, que para mim era onerosa, porém o cavalheirismo, mesmo em cachorros não tem preço. E realmente, os dois pastores mudaram de atitude, passaram a ser mais seletivos, cordatos e sorridentes com pessoas estranhas, somente incisivos e violentos em certas situações, as quais o psicólogo Dálmata caracterizava como “sensibilidade às pessoas com aura duvidosa”. Com o tempo, começaram a ocorrer assaltos em Campos, segundo o tenente Rufião, com o modus operandi semelhante, preferencialmente em casas com cachorros. Daí para concluir que todos esses cães foram treinados por Anápio e sua trupe de larápios, levou mais um ano. Nesse meio tempo Bráulio já havia se tornado baixista dos Gansos e nossa casa assaltada quatro vezes. Rufião comentou que quando a ilação dos assaltos com o adestramento de cães foi constatada, ele próprio foi à residência da família Risco, disfarçado de Eros Ramazotti, em busca de provas. Encontrou cinco macacões verde musgo e duas flautas doce, que amaciavam e tornavam os bichinhos dóceis, liberando a moçada para a “limpeza”. Além dos larápios, quem ficou muito triste foi meu pequeno Índio, que teve seus sonhos musicais adiados”.
         Então ficaremos sempre vigilantes, no aguardo de novas histórias desse baluarte da nossa moderna música, relatando-as tão pronto recebermos. (Luiz Carlos Peretto-Jam-6/9/2008)

Índio Bráulio, finalmente...

         Recebi via maestro Arquivo Morto uma notícia maravilhosa. A vez de Índio Bráulio finalmente havia chegado! Ele caiu de pára quedas numa grande rede de televisão, pois um produtor da mesma está ficando com a irmã da dançarina Rodabella Gatilho, mencionando para esta que tinha a intenção de produzir um musical de fim de ano com um novo rei, a nível nacional, que rivalizasse com o outro, da outra. Ele precisaria de um personagem pouco “manjado”, com algumas histórias, que eles se encarregam de rechear e colorir o resto. Assim Bráulio estava na hora e no lugar certo pela primeira vez, sem desembolsar nenhum, porém pronto a se curvar e a ceder tanto quanto necessário. O show de fim de ano do outro rei, nunca frustra sua imensa platéia televisiva, pois sempre a brinda com um rodízio das mesmas músicas de quatro décadas atrás, que obtiveram um sucesso real, tinham consistência e certa qualidade(não se comparam a Chico, Tom, Milton, João Bosco, etc, etc), ao contrário das dos 30 anos seguintes, pobres, sem inspiração e burocráticas. Morto relatou que, “já fizeram Índio completar 25 anos de carreira, pois alteraram sua carteira de músico em nove anos, perfazendo-os em 2009, e participando dessa jogada monumental que vai mostrar seu som para todo o país. Seus amigos mais próximos revelaram que ele anda nervoso, pois no momento que o programa for ao ar, terá que representar o personagem até o final de seus dias, tal qual os outros”.
         Aqui cabe um porém, pois o maestro Morto obteve essas informações através da sexóloga Evelin “Dynamite” Caos, que segundo a revista News Month é uma das melhores escritoras do assunto. Ela só comercializa seus livros em ilhas como Caimãs, Virgens, Açores, Malvinas, Galápagos, Ibiza, Marajó e outras, com mais de oitenta trabalhos publicados. Todos eles dão conselhos para que a realização do sexo beire a perfeição, levando em conta os diversos locais e situações, fornecendo condições e jeitinhos para que tudo ocorra melhor que o planejado, nos mínimos detalhes. Segundo Morto ela ganhou prêmios com livros magistrais tais como,“Sexo à beira de um hospício”, “Sexo em uma casamata no Timor Leste”, “Sexo, enxofre, vídeo games e pilhas de 1,5 volts”, “Sexo na loja de papai”, em três volumes, “Sexo com extração de dentes”, “Sexo com vigaristas e falcatruas”, “Sexo dando volta nas aulas”, “Sexo com cavalheiros” e “Sexo em entrevista com o vampiro”. Evelin também possui a patente daquelas calcinhas estroboscópicas, da Pereira Wear, que vende pra caramba.
         Seguimos no relato obtido na troca de e-mails com o Morto, que vai detalhando sobre a estrutura do futuro programa; “a diretora, Sandra Vespona designou para a produção geral o lendário Clodovil de Abutres, homem experiente, coronel do exército e coronel de terras no nordeste, hoje em dia, após pedir baixa militar, sofreu no lado financeiro alguns reveses, tornando-se um mero cabo. Porém sobrou muita experiência de vida e um amor incomensurável por nossa música, com a qual lidou também por 15 anos, quando foi produtor de algumas coisas do gênero. A verba para Abutres, em princípio é ilimitada, porém tendo a missão de produzir algo marcante e que possa se repetir por décadas. Ele está escrafunchando no passado musical do Bráulio, buscando ganchos emblemáticos, para que o programa tenha o necessário de lembranças emotivas. Dessa forma, a cada música e a cada convidado, a galera vai se enternecendo, permanecendo o efeito bom para vendas de shows e discos e para o próximo ano. Bráulio terá duas bandas de apoio no palco, Fossa Séptica Trapezoidal e Os Cavalheiros Desprezíveis, este um quarteto de cordas que se transforma em sopro e se for necessário vira uma bateria de escola de samba. Além deles, um coral com 12 papagaios do maestro ítalo-venezuelano Gildo Mastrantoniangelo. Todos os diálogos, monólogos e depoimentos honestos do show serão elaborados por Almir Bom Pastel ”.
         “Se esse programa fosse cogitado há cinco anos atrás, Bráulio com certeza responderia no seu linguajar peculiar, “Gemadas estos locus saltus miserablicos sejum”, que até hoje não decifrei, porém sei que ele não quer e está deveras revoltado. Hoje ele está acomodado, precisando apenas de mais grana, um carro novo, uma viagem para a Grécia e que tudo mais vá pro inferno. Todas suas ambições de mudanças no mundo se esvaziaram ao longo dos anos, dentro de um cadinho de fazer omeletes com bacon”.
         “Abutres localizou uma pérola de Bráulio, lançada no meio dos 90 com pouca repercussão, em dueto com a cantora Marlene Diretrizes, chamada “Não fuja de mim, com o meu dinheiro”, quando Bráulio devia muito para um coronel musical, que o obrigou a gravar para ter sua vida de volta. Abutres convenceu Diretrizes a participar do programa, obteve a master do som e está encaminhando para o maestro Clark Kent da Silva, o diretor musical e arranjador do projeto. Outro achado de Clodovil foi Mirelle Metier, com quem Bráulio realizava um programa de rádio ao vivo, no início dos 90. A missão precípua dele era divulgar o resultado do jogo do bicho, sempre na última música do programa de forma codificada, e que ele a compunha minutos antes e a interpretava em dueto com Mirelle, para um grupo de ansiosos ouvintes. Nesta altura, Bráulio devia 520 mil cruzeiros para os bicheiros, portanto não poderia se furtar. Outro ser importante para ele foi o padre Veríssimo Capillar, seu confessor e professor da cadeira de atitudes imaginárias, no segundo grau. Ele se negava a entrar nesse jogo, alcunhando-o de “palhaçada musical”. Como Abutres era perito em interrogatórios e prensas, o convenceu a participar de bom grado”.
         “Abutres igualmente se encarregou de estabelecer algumas exigências “de” e “para” Bráulio, á nível de valorizar o produto. Como 1250 toalhas brancas lambuzadas com chocolate branco, 250 cartolas com o distintivo do Vasco, um rinoceronte amistoso, 85 gatinhos meigos e com olhos azuis, 10 pares de meias com chulés diferentes e uma coleção completa de selos alusivos a segunda guerra mundial, esta última para Bráulio se deleitar 15 minutos antes de subir no palco. Na verdade ele só tinha uma para si, vestir preto, o que lhe foi negado, estabelecendo o branco e o verde limão para o seu terno. Para os demais participantes e convidados de palco, azul piscina, para a platéia em geral o bege, sem exceção, indistintamente, recebendo na contra partida refrigerante e cachorro quente”.
         “O musical irá ao ar em 22 de dezembro de 2009, ao passo que recebermos mais informações de cocheira, principalmente através da Evelin, vou lhe passando. Abraços de seu amigo Morto.” (Luiz Carlos Peretto-Jam-8/4/2009)

Aquela noite poderia ter mudado o rumo da nossa música

         Vasculhando em revistas antigas, encontro a número 162 da Quatro Sodas de 2006, especializada em refrigerantes tipo soda, cujas publicações pararam em meio de 2007, com a popularização do celular e o consequente redirecionamento de verbas do povão. Verifiquei na seção musical, onde Emma Thomas Dhoy escrevia sobre bandas novas, eventos musicais e culturais, enfim, tudo que ocorria na cena musical da grande SP. O texto tratava de uma noite especial com quatro bandas, cujas apresentações foram dissecadas por Dhoy, revelando serem naquela altura prováveis caminhos diferentes para a música brasileira, pois elas trilhavam sonoridades e estilos que poderiam fazer a diferença num contexto por demais pobre e decadente.
         Vou reproduzir o texto da matéria na íntegra, para quem não teve a oportunidade de ler o número daquela conceituada revista, que inclusive na referida edição trazia uma matéria especial alusiva ao cinquentenário das Sodas Pereira, mais um super poster da Sodinha Pereira ao lado da beleza selvagem e assassina de Rodabella Gatilho, muito à vontade. Vamos á matéria de Dhoy:
         “Tarde de sábado em Cocha Bamba, ao sul de Ventos Sopram, fui escalada para cobrir mais um evento musical, que pareciaser igual a centenas de outros que participei em minha vida, como crítica musical. Fui com o motorista e fotógrafo da Quatro Sodas, Gentile Possessivo, o Gente, também fissurado em modernidades sonoras e ávido por coisas novas e bacanas, como eu. Chegamos 2 horas antes do início e fomos conversar com os promotores do evento, Índio Bráulio e Casquinha de Siri Novaes. Estes relataram que tinham grande esperança nas quatro atrações da noite, tanto em inovação quanto em qualidade musical, portanto eu deveria ficar bem atenta às apresentações. Dica esta que Stephen Quatro, meu chefe e dono da revista também havia me feito, e com veemência. Confesso que à princípio não acreditei no que me disseram, mas prometi a mim mesma me concentrar em cada um com fervor”.
         “Às 20 horas em ponto subiram no palco as Kadelas Sociopatas, grupo feminino tendo à frente Merlene Aberração nos vocais, executando um inacreditável punk submarino conversível, que eu só havia ouvido semelhante em Nuremberg, no Festival da Murcilha de 2002. As Kadelas solfejavam com aflição histérica, enquanto a guitarrista Draga de Marlowa surrava seu instrumento como se estivesse batendo num dromedário enfurecido, que a estava colocando em perigo. Brenda Cuspidela parecia estar tendo espasmos, orgasmos e coceira com seu baixo Pereira Special, com apenas duas cordas e Martina Coração Valente simplesmente implodindo sua bateria, usando dois abacaxis verdes como baquetas e levando tudo de roldão. As letras, todas de Aberração e Cuspidela não deixavam nada inteiro pra trás, bradavam que Ronaldinho entrasse em forma, questionavam a flora medicinal, o tráfego em dois sentidos, a sinaleira de quatro tempos e que Rubinho finalmente voltasse pro Kart. A galera estava completamente ensandecida nestes 40 minutos das meninas, até os seguranças do evento cantavam junto os refrões. Guardem este nome, Kadelas Sociopatas”.
         “Lembro bem do horário, 21:32. Foi quando Alucinações Gastronômicas invadiu o palco com seu jeitão brejeiro e seu rock alternativo conjuminado com rock progressivo, letras e vocais meio Oasis meio brega. Eles iniciaram sua fantástica apresentação com os 15 minutos de “Me dá chá de marcela”, um climão em certos momentos e em outros a loucura dos teclados de Heráclito Pinduca, revivendo grandes momentos de Keith Emerson, quando não tinha pra ninguém, só pro seu teclado. Nos vocais Frido Pastel, misturando influências de Papai Noel Gallagher e do nordestino Waldik Soriano, principalmente no estribilho quando pede pra gatinha que lhe faça o chá, pois não aguenta mais a diarréia. A segunda canção, “Couve, você me ouve? O que ouve?”, mostra o grupo à frente de seu tempo com um progalterno de reis, vocais sujos e distorções embrulhados numa ladainha fascinante e dantesca. Em baixo ou em cima dos vocais, os teclados de Pinduca tocando os hinos dos principais clubes de futebol brasileiro, contrapondo ao resto da banda que seguia com a Couve, numa jam de 18 minutos. Encerraram com os 16 minutos de “Querida, engoli as crianças- partes II, III e VI”, que mostra a que ponto chega o amadurecimento de um grupo, que leva seu trabalho à sério. A música expressa de forma lacônica e sub entendida todo o processo do engolimento, até o surgimento dos primeiros gases. Nota 10”.
         “A terceira atração da noite exigiu dos promotores que acalmassem a platéia, pois as duas anteriores deixaram marcas profundas na audiência. O impacto foi visível, tanto que Casquinha foi pessoalmente ao microfone e usando sua experiência com algumas estórias tristes, preparou os indivíduos para o ponto alto da noite. Esta seria uma peça musical encenada sobre o palco, na linha ballet sertanejazz operístico para a juventude. No libreto da peça constavam os figurantes do grupo, Pedrão, Maria Mole, Mara Cutaia e Daniel o Duvidoso, tema abordado, infidelidade no seu mais amplo espectro, como entre casais, partidária, clubística, com bichos de estimação e a pior, do IR. Letras extraídas do álbum “Faces cruéis da minha infidelidade”, da dupla Escrivão e Datilógrafo e compostas por Cintro Muito. A entrada do grupo em cena foi apoteótica, pois a massa constatou que Pedrão na verdade era Índio Bráulio, hoje já famoso tanto no mainstream quanto no underground, por si só cativando a assistência. A peça iniciou com a Dança dos 7 véus, Mara Cutaia e Pedrão no ballet clássico, o que novamente obteve uma reação estrepitosa do público, pois Pedrão com suas panturrilhas 44 e seus bíceps 50 demonstrava leveza e desenvoltura em suas sapatilhas no. 44 e seus 1,65 metros de altura. Conheço as medidas do Índio pois tivemos um affair no verão de 2004, em Los Palmitos. Ele rodopiava faceiro com Mara pelo vasto palco e a galera rugia de felicidade. Após, inicia a peça propriamente dita, com os diálogos cantados pelos atores beirando à perfeição, apoiados por um quarteto de jazz tradicional, baixo, bateria, piano e gaita de fole no fundo e um enredo cheio de nuances, com a infidelidade campeando entre os protagonistas e as coisas que os cercam. Um gostando do outro, o outro gostando do terceiro, o quarto querendo o segundo , em suma um enredo extremamente original. Lembrei a frase de um velho fariseu empedernido, “só os que conseguem alcançam”, e eles conseguiram, pelo menos ali”.
         “No apagar das luzes, exatamente meia noite e 45 minutos sobe ao palco a banda mais aguardente da região, Os Bastardos e Eu, de Brudo Salmora, cuja principal característica, constatada naquela noite, nunca terminam uma canção. Começam muito bem até pelo estado deles, porém do meio pro fim é um caos, para o delírio da galera, que a cada erro vibravam como se fosse um gol do seu time. E esse foi um quase show, pois desfilaram 22 músicas inacabadas, que na verdade tem o seu valor, pois, Os Bastardos e Eu são os únicos neste mundo a não concluírem nada musicalmente. Na verdade nas quatro últimas músicas, só o Brudo na guitarra e vocais e a bateria esdrúxula de Don Raviolli. Esta banda talvez não tenha muito futuro, porém sua marca ficará nos corações dos amantes da boa música”.
         “Só resta cumprimentar a produção e as bandas, desejando boa sorte a todos, pois vejo muito futuro nelas e uma possível grande contribuição nestes tempos pobres e talvez remediados do cenário musical. Até a próxima edição, queridos leitores da Quatro Sodas”.
         Eu pincei este texto, pois fiquei na dúvida sobre a veracidade das palavras de Emma Thomas, se ela escreveu e escreve o que realmente acontece e sente, ou se existem outros motivos para destacar desta forma aqueles grupos e a maioria dos que andam por aí. Por ironia todos eles sumiram de cena, com exceção de Índio Bráulio, que conforme suas palavras “continua na cruzada da boa música”.

Desmanche de carro

         Manhã de terça-feira, 27 de outubro de 2008, estava em frente ao computador de minha filha, já havia traçado selvagemente umas quatro bergamotas, quando o sinal de e-mail apontou para mim. Indicava Sagu Liberato Xavantes Minguante, com o qual havia conversado numa exposição de disfarces usados na segunda guerra mundial. Conversamos sobre Casquinha de Siri, o qual Sagu rebateu imediatamente ser este um picareta dos maiores e que ele operava no mesmo ramo, porém com mais dignidade e humanidade. Relatou que morava em Aspen dos Peões, havia participado de vários projetos musicais ficando de me enviar alguns caso quisesse investir no mundo musical. Não sei o que faz com que o empresariado musical vislumbre em mim um incauto, que colocaria em suas mãos uma verba que luto para ganhar, apesar de Sagu me parecer muito seguro de si, passando confiança aos investidores. Enfim surgiu um projeto dele, o qual achei diferente e com boas possibilidades, pois o nosso mercado é ávido por coisas assim, meio pra lá e pra cá, com muito de nada, aparentando tratar-se de quase tudo mas com quase nada e com bom volume de p... nenhuma. Porém, indicando possível sucesso efêmero, já tradicional no nosso país, com chances de alguns espertalhões encherem os bolsos,conforme a cara de pau e a verba requerida para esses casos. Então vamos à proposta:
         “Sr. Peretto, venho solicitar apoio financeiro para uma empreitada de pessoas valorosas e culturalmente cheias de gás. Formei um grupo que vai abordar um tema apaixonante e cheio de possibilidades para o entretenimento do grande público, enaltecendo profissionais anônimos e competentes do desmanche de carro, atividade pouco reconhecida, porém de grande relevância atualmente. O líder é um velho conhecido, trata-se de nada menos que Índio Bráulio, aqui usando outro nome, conservando o seu para futuras jogadas. Ele surgirá como “Cedrik o Gaulês e o Grupo Tira o Pistão com Jeito Novo” e a “Dança do Desmanche de Carro(um de cada vez é mais gostoso)”. Na formação oficial do grupo, Cedrik nos vocais e mouse, Ice Cube Pereira Filho e Kátio Simpleplan nos back vocais e Rodabella Gatilho comandando 12 dançarinas e desmanchadoras de carros. As meninas, todas bonitas e gostosas, irão se diferenciar pela cor da calcinha, pois assim será fácil identificá-las, até para futuras aparições em revistas masculinas onde poderão anunciar como a “verdinha do desmanche” ou a “amarelinha do desmanche”, sem cobertura.Todas usando, além da calcinha, um salto de 15 cm, um vestido de 14,5 cm e um top combinando com o salto. Todas farão um curso de desmanche de veículos na Mecânica Jorjão.
         Quatro patrocínios estarão ao nosso lado, a montadora Pereira Veículos SA, a mesma de Guitarras Pereira e Ice Cube Pereira Filho, tendo à frente o projetista nipo-californiano Nókio Rabpreso. O segundo, apesar da cara feia e do ciúme do Casquinha é a Crediferrão, onde Moustapha me agradeceu por poder respirar ares e ideias novas. Também as Calcinhas Luminares, de Ludovico Luminares e os óleos e líquidos para freios Sargento Garcia, do heterodoxo Capitão Garcia. Já temos certa a presença do grupo entre os concorrentes para o Grammy Latino 2009, pois um dos organizadores deste tem uma dívida moral com Vilasboas Musculus, procurador de encrenca da Crediferrão.
         O tema principal será um mix de 15 minutos, com possibilidade de ser interrompido pois teremos no arranjo 4 deixas durante sua execução. A rádio ou TV poderá interpor comerciais e depois retomar a música de onde parou, sem prejudicar seu andamento, como séries e novelas televisivas. A melodia será um trecho de uma peça do Stravinski, curtinha para não caracterizar plágio e replicada várias vezes durante os 15 minutos.Para o ritmo e o arranjo, foi dado preferência ao funk mostardão com sertanejaulão erudito embebido em axé pragmático visceral. As doze garotas, sexies e ousadas, dançarão desmanchando o carro nos exatos 15 minutos,restando apenas a carcaça metálica do modelo Pereirão Point Rush 3, top da Pereira Veículos. Isso ocorrerá sempre em programas televisivos que visam expandir vendas e em shows importantes para grandes públicos, nos menores elas desmancharão algumas bicicletas, micro-ondas e ventiladores, também da Pereira.
         A banda de apoio para as gravações será a Asnos Politicamente Corretos, pois nos shows usaremos sempre play back,deixando apenas o microfone de Cedrik aberto para um sobre-vocal, dando a impressão de ser ao vivo e para algumas observações pertinentes como, “agora todo mundo”, “só vocês”, “eu amo esta terra”. Cedrik, aliás, Índio Bráulio até bem pouco era vocalista de punk, porém a vida lhe foi madrasta, ensinando algumas duras lições. Apesar de detestar o que vai fazer, ele precisa de dinheiro e sabe que só o obterá com alguma baixaria, bem pouquinho, pois nosso projeto perto de outros pode ser considerado auto técnico educativo desconstrutivo. Esperamos que Bráulio se porte bem ao vivo, não queira vociferar e soltar os cachorros na galera, que pode não ter muito no cérebro, porém quer inocentemente se divertir, tendo esse direito principalmente quando paga. Os Asnos farão os shows de abertura com sua sonoridade original, algo entre anos dourados e verdes anos, permeado por um acri-doce axé chulé, como convém para a galera começar a rebolar. Como as 12 meninas só sabem desmanchar os carros, os cinco Asnos remontarão o veículo para o próximo evento, pois também tem o curso de montagem na Mecânica Jorjão.
         Falando nos Asnos, o líder deles, Pablo Ratazana se notabilizou pelo Tarzan Noble Residence, um condomínio luxuoso com todas as casas sobre árvores, inclusive suítes com hidromassagem e carrocinhas de churros prive. Com o tempo as árvores foram cedendo, os processos foram aparecendo, a Incorporadora Ratazana quebrando e a prefeitura local, que havia autorizado o residence, pagando. Pablo foi precursor da ópera pop glam constipada em sua região, com “Uma Thurman de Velozes e furiosos e Gerard Depardieu, Nascidos em 4 de julho, Branquelas, numa Missão impossível com as Panteras, Ace Ventura e Hannibal Lecter resgatando o Titanic e Leo Di”. Ratazana e mais 25 atores cantores interpretando esse intrincado enredo, com belíssimas canções que Merlin Conhaque transformará em DVD .
         A letra, ou seja, a poesia do desmanche foi escrita por Verde Van Vilson, parceiro de Índio Bráulio, principalmente quando os dois tinham a banda Bigornas Sexualmente Transmissíveis: um punk raivoso, dolorido, ativado por micro organismos salutares e com ingerência de seres intergalácticos urbanos, segundo Verde. Ele testemunhou o linchamento de um vocalista parceiro seu, isto o fez refletir sobre a vida, a morte, bico de papagaio, tarugos suplementares, linha de passe, cubos de gelo mexicanos e pesca predatória. Deduziu que o mais fácil seria ignorar seus princípios e partir pra grana com todo amor e devoção, por mais estúpido que possa parecer. Então, após assistir por dois meses programas de auditório em TV aberta, saiu a seguinte poesia:
         Entrada(sem fundo musical) Óleo ai gente, vem chegando a turma do Desmanche Cedrik o Gaulês e a turma do Desmanche vão deixar você extasiado/ Por que o seu carrão importado vai ficar depenado (40 vezes) Saindo mais um pistão/que vai fazer a alegria de um cristão (25 vezes) Esta noite vou curtir assim/abraçado no meu novo virabrequim (25 vezes) Este rodado vai ser meu/Nem que eu tenha que botar no seu (15 vezes) Agiliza essa direção esporte/vou vender para um cara de porte (15 vezes) Tira mais um pistão/ vou dizer que encontrei no paradão (15 vezes) Antes de deitar na caminha/vou passear com minha nova ventoinha(8 vezes) Passa a chave de fenda que eu vou atolá/na primeira bitola que eu enxerga(8 vezes) Óleo e líquido de freio na chupadinha/pois vou armazenar tudo em baixo da caminha(8 vezes) MP5, CD’s e amplis vou esconder no armarim/depois vou passar pro china Pim Gum Lim(8 vezes)

O que não cola mais

        Gravitar todos esses anos em torno da música, mesmo que tenha sido como uma mosca varejeira, cria de certa forma alguns vínculos, bons ou ruins, dependendo do ponto de vista. Conversando pela internet com o maestro Anuvio Vulgares, ele relatou um papo interessante ocorrido na festa de 25 anos do Balão Mágico, em outubro de 2009, com o ex-ascençorista da Industudo, Malte Amargo, que após completar a milhagem necessária, no início de 2009 foi promovido a piloto do helicóptero particular da empresa. Malte, além de relatar suas peripécias com as celebridades nos elevadores da Industudo, empresa forte no setor da propaganda, descreveu uma interessante conversa ocorrida no banco traseiro do helicóptero, numa de suas recentes voanças pelos céus. Ela ocorreu entre Paul Chicken da Xywyonykon Enterprises e Fernão Capelo Janota, responsável pelas contas mais caras e queridas das celebridades da Industudo. O teor dela baseava-se como sempre nas pesquisas desenvolvidas por aquela empresa inglesa, sendo que o colóquio ocorreu no trajeto até o município Morada dos Borrachudos, onde o destino era o Bordel do Cordel, para Janota e Chicken espairecerem e encontrarem algumas respostas.
        Traduzindo o relato de Malte via Vulgares, “a Industudo e Janota estão preocupados com o futuro da sua empresa, pois os laços entre o público e as celebridades que eles representam são tênues. Isso porque os célebres não valem nada, são colas ruins e a galera abraça qualquer coisa mais ou menos dourada, assim como os descarta e troca por qualquer motivo estúpido, como se fosse um celular. Dudu Parasita, o guru da empresa, há tempos insiste na necessidade dela partir para outras áreas como construção civil, orquestrar uma religião, entrar pra valer na política ou até na prostituição, pois possui um extenso catálogo de modelos desempregadas. Parasita estudou em Harvard e tem algum conhecimento musical, sabe que hoje em dia a mídia é imprescindível para manter em pé um saco vazio. Uma revelação aterradora da pesquisa no braço Brasil, o tema “corno” tem somente mais oito anos de receitas confirmadas, sendo que nos três seguintes o declínio será inevitável, até sua passagem, não colando mais. Isso vai deixar a turma do sertanejo órfão de letras, precisando sofrer uma reciclagem a partir de agora, para encontrarem alternativas viáveis antes da derrocada. No axé, vimos em texto anterior que eles já estão providenciando em alterações plausíveis, porém rock, pagode, funk, rapp, emo e correlatos na qualidade precisam de uma chapeação com um mínimo de credibilidade. Fora de cogitação uma ampliação de horizontes, pois levaria muito tempo para habituar a audiência com possibilidades novas que exigem tempo, paciência e sensibilidade.”
         “Outra que está desgrudando e cansando, segundo a pesquisa é a malandragem no pagode, tão antiga quanto o samba. Hoje temos malandros por toda a parte, nos sacaneando, que vão desde pequenos golpistas até planos de saúde e de pensões, construtoras, super mercados, governos, redes de televisões, laboratórios, políticos, gravadoras e o escambal nos pregando peças marotas todos os dias e o tempo todo, nos tirando sempre alguma coisa ou nos fazendo dançar suas músicas ruins e caras, ajudando a fornecer um futuro melhor só para eles. Então não precisamos mais de falsos malandros no pagode, pois a galera está cansada de levar chumbo desta laia no dia a dia. Eu sugiro neste caso específico do pagode, por pior que seja o grupo, o uso de ternos Armani com as contas do mês quitadas presas na lapela, se possível com o grupo pagodeando com a professorinha do colegial, o padre do bairro, ou os avós de alguns membros do grupo confirmando o bom caráter deles, talvez até o delegado do distrito, pagodeando e exibindo o atestado de bons antecedentes da turma, com depoimentos esclarecedores. O comum é o malandro, manjado há muito tempo, e o bonzinho e o correto são os raros, quase em extinção. E se o som for um pouco melhor, aumentam as chances. Portanto aconselho e lavo as mãos deixando claro, precisamos nos adequar aos novos tempos.”
         “Repassei os elementos fornecidos por Malte para meu conhecido, Louis Hiena, pois queria alguns subsídios em cima daqueles dados. Hiena é um músico americano, que veio para nosso país em meados dos 2000, fugindo do fisco e de seus sócios nos USA. Aqui chegando, comprou asilo da máfia nacional e nova identidade. A sua conversa num precário expangles com os nossos, que se expressam num legítimo portunhalês, originou seu controverso nome de Louis Hiena, no exato momento que proferiu o local de seu nascimento, Louisianna. De posse de seu RG, dois CPF’s, inúmeros cartões de crédito, celulares e tudo mais que um cidadão de bem precisa, Hiena se transformou em mais um brasileiro a tentar tirar leite talhado de pedra. Em pouco tempo com seu sotaque e aparência primeiro mundista, transformou se no herói, paradigma e modelo a ser seguido por sertanejauleses, pagodauleses, axézeiros e roqueiros nacionais, trabalhando no estúdio “São Tantas Emoções por Segundo”, do alemão Sigmund Obdhatuch. A partir de algumas observações de Hiena, me senti encorajado a abordar o tema sem medo de cometer heresias. De cara ele acha válido procurar as saídas agora, pois considera que os vínculos entre público e essas celebridades musicais realmente está num pincel. Por conseqüência a Industudo está pendurada numa velha brocha mole. Comentou que a gravadora Quick Silva Records, de Messenger Silva, que sempre está um ou dois passos à frente das outras, já está se mexendo, mesmo sem tomar conhecimento de tal pesquisa. Eles estão lançando o Pagode Perna de Anão, criação do próprio Hiena, que introduz duas notas quebradas em toda e qualquer música deste estilo, uma delas a 27 segundos do início e a outra a 35 segundos antes do final das mesmas. Existem aí duas intenções, a primeira quando o povão feminino ouvir as quebradas, ele será induzido por ato reflexo a exibir in natura um dos seios, conforme as dançarinas guias de cada grupo de pagodanão, tais como o Jota Cresce, o Chuta Que é Moranga e o Escarrando Pagode. Isso inclusive dará um gás aos programas de auditório, pois todos ficarão em frente das suas TV’s aguardando as notas quebradas e aquele ato reflesexo. Grávidas e vovós estão dispensadas deste gesto, bem como as que o praticarem e estiverem com carnês e contas atrasadas correrão o risco de serem multadas. A segunda intenção, aumentar a sorte como ocorreu com a música espanhola de Vidasverdes, que assim procedeu nos anos 80, com composições recheadas de meias notas e descontos para estudantes, que resultaram em um retorno fantástico para ele e sua troupe, além de muita sorte no amor. Por sinal, Vidas tinha um comércio de fogos de artifício, onde as suas meias notas também espocavam a pleno vapor, exceto quando foi inquirido pelo fisco espanhol por te-las expelido com um terço do valor.”
         “Segundo Hiena, Messenger Silva contou a ele que antes de ter a gravadora, passou por um sufoco imenso, quando foi sócio de Nicolas Flúor Recente na “Jardinagem Senhor dos Anéis”, onde a proposta além de realizar um ajardinamento impecável, era desenterrar sapos, mandingas, gatos e galos pretos, ossadas indígenas e alienígenas, livrando as famílias de encostos, alguns seculares. Eles efetuavam o trabalho em três dias, dando preferência para quem fosse viajar, liberando o jardim para o trabalho pesado que lhes cabia. Labutavam 24 horas a fio, tendo pessoal para três turnos de oito horas, que certamente incomodava os vizinhos, porém esses se resignavam pois podiam estar sofrendo encostos ou vibrações peçonhentas por tabela. Silva conta que chegavam a ter 30 pessoas por turno trabalhando sobre o terreno, usando vestimentas típicas da idade média e cajados de plástico importados da Bubble Spike Three Corp.. Os cajados tinham o selo da designer Wilma Wlinstone, comportando máquina fotográfica digital, celular, internet banda larga e conexão direta com o satélite da Library Conceptual Analogic Baroque System, que Silva veio saber depois, era fachada da Karmen Oil Industries de Pasadena. Tudo escureceu e fedeu quando na casa do paisagista Wanderléio Frodo um líquido viscoso e preto começou a jorrar, com grande pressão, sujando a bela casa de três pisos, as quatro piscinas e matando vários peixes em extinção do seu aquário de 30 mts 2. O esguicho só foi contido com a vinda dos bombeiros, alguém havia atingido um duto de óleo há pelo menos sete metros abaixo do nível do solo. Wanderléio chamou a polícia, pois o pai de santo “Filho de Atum” havia confirmado que qualquer artefato maligno enterrado só faria efeito a menos três metros. Então algo muito escabroso estaria ocorrendo em sua santa casa. Sem falar no seu terreno de 1200 m2, todo perfurado, com dezenas de escavações na sua extensão, variando de três até quinze metros. O delegado Múcio Panos Dourados, encarregado do caso apurou, após algumas diligências e carros pipas que: 1)Messenger Silva nada tinha com isso, era um bobo não tão alegre, 2)Nicolas Flúor Recente tinha tudo, com antecedentes e passagens pela polícia, com indícios de crimes do colarinho branco que não foram provados, 3) Recente havia recentemente se mancomunado com a gangue de Tony Galhos, James Fornika e Marvin Putharion na busca do produto de um roubo, ocorrido há dez anos atrás, cujas informações eles descolaram, 4)Eles recrutaram um grupo expressivo de meliantes operários místicos com anéis e passaram a jardinar em busca do dinheiro. Seus apelidos oscilavam entre “Brinquedo Assassino”, “Jason Verde Amarelo”, “Bolha Assassina”, “Usina de Cadáveres” e “Carro Assassino”, 5)O dinheiro deve estar no bairro Pompa com Finesse, pois outros 27 terrenos haviam sido “vasculhados” de forma idêntica, enquanto que nos demais setores da cidade eles somente faziam o mínimo para manter o disfarce, 6)A Library Conceptual fornecia o suporte logístico, com aferições, gravações, prospecções digitais via satélite para posteriormente a Karmen Oil realizar as “negociações cabíveis”. O produto do roubo seria dividido, após pagos os custos de pessoal, ferramentas, adubos e cajados, entre Recente, Galhos, Fornika, Putharion e a Karmen Oil, 7) Dourados deu voz de prisão ao grupo de meliantes num tom tenor contralto cavalcanti.”
         Novamente fico espantado com o dinamismo empreendedor do nosso povo, que mesmo tolhido por fenômenos financeiros fomentados que só pendem para um lado, modernismos pirotécnicos e internéticos que sugam seus parcos recursos e tiram empregos, fazendo-os dançar o mesmo de sempre, “Hei você ai, me dá teu dinheiro aqui”. E eles entregam mesmo, via impostos, juros de bancos, planos mirabolantes, entretenimentos banais. Estufam o peito e seguem firmes e felizes na sua marcha inglória. Neste fim de texto quero prestar uma homenagem ao casal Mássimo e Helena de Bóia, que apesar dos inconvenientes e as pressões dos grandões, continua importando e vendendo uma linhagem especial para o nosso país, que são os Cavalos de Tróia. (Luiz Carlos Peretto – Jam Sons Raros – 15 / 01 / 2010)